TRUMP QUER SER ALBUQUERQUE

Há um súbito fascínio mediático pelo estreito de Ormuz. De repente, descobrimos que por ali passam petroleiros que abastecem meio mundo e que qualquer perturbação naquele corredor marítimo pode fazer tremer os mercados energéticos globais. Nada disso é falso. O curioso é o que fica de fora da narrativa.

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Trump não sabe quando vai terminar a guerra que lançou contra o Irão. Insiste que o objetivo militar é impedir que o Irão consiga fabricar uma bomba nuclear. A guerra só terminará quando esse objetivo for alcançado, pressupõe-se. Mas o “papão” do Irão nuclear é algo que os israelitas propagandeiam há muito tempo. Netanyahu já fala nisso há mais de 30 anos, sempre a dizer que o Irão está “perto” da bomba nuclear. É uma linha discursiva contínua desde o início dos anos 1990, nunca confirmada. Ou seja, sempre desmentida, quanto mais não seja, pelo passar do tempo.

Netanyahu a mentir desde 1992

O Irão não tem armas nucleares, ponto. E por isso está a ser bombardeado por Israel e pelos EUA.

Apesar de semanas de bombardeamentos israelo-americanos, o Irão continua a conseguir bloquear a passagem de petroleiros. Nem precisa de os atacar: basta a ameaça. Num estreito tão estreito quanto estratégico, o simples risco já é suficiente para paralisar armadores, seguradoras e companhias de transporte.

Mas no eco das posições de Washington, a imprensa ocidental parece esquecer alguns detalhes. O primeiro é que o próprio Irão também produz petróleo e o exporta precisamente por ali. O segundo é que, neste episódio, é o Irão que está a ser bombardeado, sem que tenha havido uma agressão prévia que justificasse tal ofensiva no plano do direito internacional.

E há ainda um terceiro detalhe: a interferência no transporte de petróleo não começou agora. Os exemplos são numerosos. Cuba continua sujeita a um bloqueio ditado pelos EUA que impede a entrada de petróleo na ilha. A Venezuela foi alvo de uma agressão militar dos EUA para controlo dos seus hidrocarbonetos. E, em águas internacionais, petroleiros russos têm sido atacados por forças ucranianas com apoio ocidental.

Nada disto costuma aparecer quando se fala de Ormuz. O que mais surpreende é a forma como as notícias surgem hoje: sem contexto histórico, sem memória recente e muitas vezes sem uma verificação minimamente exigente das fontes. O estreito é apresentado como um drama súbito. Quem questiona as razões da agressão israelo-americana ao Irão?

Ao ler os relatos de hoje não podemos deixar de reparar que regressámos ao século XVI, quando controlar um estreito era simplesmente uma questão de canhões, força bruta e ambição imperial. Como se ainda estivéssemos no tempo de Afonso de Albuquerque.

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