O futebol português é, paradoxalmente, um dos nossos produtos de maior excelência e uma das faces mais feias do país. Exportamos talento, treinadores, jogadores, diretores desportivos, médicos e fisioterapeutas, observadores e analistas, modelos táticos… As seleções nacionais – da principal às camadas jovens – estão presentes, com regularidade impressionante, nos grandes palcos desde o Euro 2000. Dantes, era quase deserto. Hoje, é quase garantido. Lá fora, respeitam-nos. Cá dentro, destruímo-nos.
A mais recente amostra desse veneno chegou pela voz dos dirigentes máximos dos três grandes. Em vez de elevarem a fasquia e protegerem o negócio de que todos vivem — e que dá vida a tantos —, preferem mergulhar o futebol no pântano do insulto, da suspeição e da intriga. Neste jogo de bastidores, pouco interessa a verdade desportiva e muito importa o ruído que desvia atenções.
Mas o impacto vai além das estruturas. Está no público, nos adeptos, que muitas vezes se comportam como parte do problema. Vê-se em quem desculpa tudo ao clube “do coração” — mesmo que esteja a centenas de quilómetros — e é implacável com o clube da terra. É um contra-senso gritante: o clube local é o que dá oportunidades de prática desportiva aos próprios, aos filhos, aos familiares chegados. É o que forma, educa, socializa. Mas é também o primeiro a ser abandonado na bancada, trocado por camisolas de outros.
Esta inversão de valores tem custos. Enfraquece o ecossistema do futebol de base. Alimenta monstros e apaga raízes. É mais fácil encher a boca com o nome de um grande do que apoiar quem trabalha ao lado, com meios reduzidos e amor ao jogo.
O futebol português é uma montra de luxo com uma cave imunda. O mundo compra a montra; nós vivemos na cave. Vendemos talento mas alimentamo-nos de polémica. Exportamos génio e ficamos com a guerra. E há quem viva bem assim. Há quem “mame” desse veneno e ainda engane multidões, como se este espetáculo de lama, em que participam meios de comunicação, fosse inevitável. Não é. O futebol pode ser melhor. O país também.
NOTA: A atitude de Matheus Reis devia merecer ação da justiça desportiva — sem rodeios nem clubismos. Se foi propositada, como tudo indica, mesmo no calor do jogo, não tem qualificação possível. E se todos têm direito a errar, também têm o dever de reconhecer o erro. Seria um ato de elevação de caráter! Um pedido de desculpas teria atenuado; a arrogância e os cânticos que se seguiram só confirmam a gravidade do gesto. Internamente, os organismos devem funcionar para todos, sem exceção, e funcionar depressa. Só assim se quebra o ruído e se protege o jogo.
(crónica também publicada em Soberania do Povo)



