SOBRE O HORROR

Não há forma de entender como é que os políticos que não condenam o genocídio dos palestinianos conseguem racionalizar aquele horror. A relatora da ONU para os direitos humanos, Francesca Albanese, disse que "a maior parte" dos países ocidentais "permanecem inativos, no melhor dos casos, ou ativamente a ajudar e a assistir à conduta criminosa de Israel". Sem papas na língua.

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No caso de Portugal há uma complacência envergonhada, mas igualmente indigna. Portugal defende a solução dos “dois Estados”, mas não faz nada por isso. Qualquer eventual iniciativa portuguesa dependerá de consensos na União Europeia e do lado de onde soprar o vento. Uma subserviência indigente. Nada obriga Portugal a seguir “tendências” da UE ou dos EUA, mas os governos portugueses têm abdicado do exercício da soberania nacional sobre a questão da Palestina.

Para nossa vergonha, em maio de 2024, Espanha, Irlanda e Noruega, reconheceram o Estado da Palestina. A Eslovénia fez o mesmo em junho. 

Notícia publicada em maio de 2024 pela Agência de Informação de Moçambique em Faixa de Gaza: MNE português não vê genocídio

Não se trata apenas de alinhamento geopolítico, mas de hipocrisia. O mundo inteiro sabe que a narrativa israelita se baseia em mentiras sobre “autodefesa” ou “direito à existência”, porque ninguém na região tem capacidade para ameaçar Israel, desde que continue a beneficiar da proteção dos porta-aviões americanos.

Têm a lata de relativizar o genocídio do povo palestiniano, dizem que a situação é “complexa”, tentam colocar as duas partes no mesmo patamar de responsabilidade, mesmo diante de uma realidade de ocupação e massacres desproporcionais. E há os que dizem que a culpa é do Hamas, como justificação para dezenas de milhar de crianças mortas, mais as suas mães e avós, pais, primos e vizinhos. Mas não há ideologia ou afinidades religiosas que justifiquem o apoio a assassinos. Trata-se de cumplicidade, não há outro nome.

Países que se dizem democráticos estão a ser cúmplices deste genocídio. Vemos todos os dias as bombas que matam indiscriminadamente. Mesmo se os média institucionais o omitem, temos ainda o Telegram, o Bluesky e outras redes sociais que escapam ao controle dos sionistas.

Mas, mesmo diante de provas contundentes, os políticos do Ocidente revelam que agem com base em interesses e não em princípios, como durante muitos anos acreditámos que faziam. O cinismo destas “democracias” que pregam direitos humanos, mas fecham os olhos (ou até apoiam ativamente) um genocídio, é revoltante. Esse duplo padrão mostra que, para muitos governos, valores como liberdade, justiça e dignidade humana só valem quando convém aos seus interesses políticos e económicos.

O mais chocante é que estes países, que se apresentam como defensores da ordem internacional e da civilização, legitimam as atrocidades de Israel e, ao mesmo tempo, criminalizam qualquer solidariedade com o povo palestiniano, reprimindo protestos e censurando vozes dissidentes, como tem sido feito nos EUA, na Alemanha, em Inglaterra, Holanda, etc.

Quando a relatora da ONU para os territórios palestinianos esteve em Portugal, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, não a recebeu. Justificou dificuldades de agenda. Diz tudo sobre o incómodo e a cobardia.

A cumplicidade com este horror não será esquecida. A História julgará essa gente. Talvez ainda no nosso tempo de vida. Hoje são poderosos e julgam-se impunes. Mas a vida dá muitas voltas.

Até lá, escrever textos de denúncia em redes sociais, sites e blogs faz parte da luta pela decência. A escrita pode não parar bombas, mas contribui para pressionar governos, expôr as cumplicidades, sensibilizar os leitores. Cada denúncia, cada artigo, cada testemunho contribui para um arquivo histórico que ajuda a desmontar a narrativa oficial dos opressores.

Na Palestina, há quem morra por escrever textos ou gravar vídeos

Nos últimos dias, pelo menos três jornalistas palestinianos foram mortos. Um deles, Hossam Shabat, deixou uma mensagem ao mundo, para ser divulgada caso morresse em reportagem. Aconteceu ontem, em Jabaliya, no norte da Faixa de Gaza.

Hossam Shabat

“Se estiverem a ler esta mensagem, significa que fui morto, provavelmente abatido pelas forças de ocupação israelitas. Quando tudo começou, eu tinha apenas 21 anos, era um estudante universitário com sonhos como qualquer outro.

Nos últimos 18 meses, dediquei todos os momentos da minha vida ao meu povo. Documentei os horrores no norte de Gaza minuto a minuto, determinado a mostrar ao mundo a verdade que tentaram enterrar. Dormia nas calçadas, nas escolas, nas tendas, em qualquer lugar que pudesse. Cada dia era uma batalha pela sobrevivência. Aguentei a fome durante meses, mas nunca saí do lado do meu povo.

“Cumpri meu dever como jornalista. Arrisquei tudo para relatar a verdade e, agora, estou finalmente em repouso, algo que não sabia o que era nos últimos 18 meses. Fiz tudo isto porque acredito na causa palestiniana. Acredito que esta terra é nossa, e foi a maior honra da minha vida morrer defendendo-a e servir seu povo.

Peço-vos agora: não deixem de falar de Gaza. Não deixem o mundo desviar o olhar. Continuem a luta, contem as nossas histórias – até que a Palestina seja livre.

Pela última vez, Hossam Shabat, do norte de Gaza.”

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