
Ibrahim Traoré falava na televisão do seu país, um Estado em guerra, onde a democracia levada pelos franceses não trouxe paz, nem controlo, nem desenvolvimento, nem futuro.
É por isso que a frase é incómoda. Porque, vista por Traoré, a democracia tem um historial estranho. Na antiga Jugoslávia ou Líbia, veio com bombardeamentos da NATO e deixou Estados desfeitos. Na Síria, foi palavra de ordem antes de se tornar sinónimo de guerra por procuração. Em Gaza, convive com bombardeamentos e o genocídio de um povo. No Líbano, não resiste às políticas expansionistas do sionismo israelita.
E se viajarmos para outras geografias, para a América Latina, as democracias foram frequentemente interrompidas quando incomodavam os EUA. É deste enquadramento geopolítico que fala Traoré.
O problema não será a democracia em si, mas o seu uso seletivo. Promove-se quando convém. Suspende-se quando atrapalha. Atraiçoa-se com facilidade. Ignora-se nos territórios ocupados. E, quando necessário, impõe-se. Com sanções. Ou com mísseis.
Por tudo isto, o Presidente do Burkina Faso diz que não quer democracia. Mas Traoré não está a vender filosofia política. Num país onde o Estado perdeu território para grupos armados, onde aldeias desaparecem do mapa e onde o quotidiano é insegurança crónica, eleições parecem um luxo exótico. E por isso, Traoré aproveitou a ocasião para adiar para data incerta a realização de novas eleições. Porque não há democracia sem Estado,
Enquanto denuncia a democracia, Traoré dissolve partidos, adia eleições e prolonga o seu poder. A crítica ao modelo serve para legitimar a sua suspensão. Por quanto tempo, não se sabe. Talvez para sempre.
A reação europeia será previsível: condenação, preocupação, retórica sobre valores. Mas há um problema. É difícil dar lições sobre democracia quando se aceita, ou apoia, a sua violação noutros contextos estratégicos. Esse duplo padrão já não passa despercebido. É ainda muito fresca a memória que temos sobre o que se passa em Gaza, no Irão, na Venezuela.
O mais relevante não é se Traoré tem razão. É se outros começam a falar como ele. Porque, no Sahel, e noutros lugares, a equação está a mudar: a legitimidade deixa de vir das urnas, passa a vir do controlo do território e da capacidade de impor ordem. Se isso se consolidar, adeus democracia.


