“O inferno ou o paraíso estão na nossa cabeça”, diz um homem cinquentenário que já passou metade da sua vida na cadeia, entre entradas e saídas, idas e regressos.
Foi uma conversa ocasional, de uma mesa de café para outra. Ele possui uma memória fotográfica fantástica e reconheceu-me de quando, já há mais de 20 anos, trabalhei num canal de televisão.
A conversa fluiu nessas memórias e foi direitinha ao “Casos de Polícia”, um programa de Informação na SIC que marcou o panorama mediático dos anos 90. Pela primeira vez, discutia-se sistematicamente a aplicação de justiça na televisão portuguesa. Mais do que o assalto, queriamos saber das razões do assaltante, questionavamos insistentemente os actos de violações dos direitos humanos, a violência policial, as iniquidades do sistema. Ele lembrava-se disso tudo.
Depois falou-me um pouco da sua história.
“Imagine viver numa cela com mais cinco ou seis, com a pia a 60 centímetros do beliche onde passa a maior parte do dia.” Viver numa cadeia é um horror e o discurso deste tipo não permite ter dúvidas quanto a isso.
“O ruído dos avisos sonoros pelo altifalante, que se ouvem até na rua”, afirmação fácil de constatar para quem passe na porta do EPL, por exemplo. “O barulho na cantina”, “a pressão dos reclusos agressivos”, “a brutalidade dos guardas”, tudo coisas que provocam um grande stress emocional e “é preciso aprender a viver com isso, encontrar mecanismos mentais que nos ajudem a passar o tempo com a serenidade possível”, confessa este ex-recluso.
Como não é possível ir dar uma volta de carro até à praia para espairecer, a única via de fuga é deixar o pensamento viajar. Alguns refugiam-se nas drogas, como via de escape. Em alguns aspetos a vida na prisão não é muito diferente da vida fora dela. Ter bom comportamento é uma coisa, encontrar paz é outra coisa.
“A paz é sempre difícil de encontrar, mesmo fora da cadeia”diz ele, com o conhecimento de causa de quem já passou metade da vida dentro e outra metade fora. “Ter uma religião ajuda”, confessa. “A oração pode ser um bom método de alienação, de acreditar que milagres acontecem”, diz. Mas acrescenta que seria melhor se o sistema prisional criasse melhores condições de vida, proporcionasse melhores condições para estudar ou aprender alguma profissão, que o sistema se preocupasse genuinamente com a reinserção social de quem praticou crimes.
No caso específico deste homem, os vinte e tal anos que já soma de penas cumpridas foram tempo perdido. Não estudou, aprendeu a dissimular. Não se regenerou, especializou-se em novos tipos de crime. “Mais tarde ou mais cedo, volto a ser apanhado e regresso aquela casa”, referindo-se às prisões portuguesas.
Um destino sem escapatória, que não é apenas um caso de polícia.




É deste Carlos Narciso que muitos de nós se lembram, talvez aqui mais sorridente do que costumava aparecer. E o programa era fantástico, diversificado, com bons comentadores, alguns dos quais já não estão entre nós, além da competência do anfitrião.
Sobre este encontro ocasional e a matéria de que trata, também me parece que a reincidência dos ex-presos nos actos que os levaram dentro, tem origem na pouca dinamização feita nas prisões com o “material” humano.
A terapia ocupacional virada para o intelecto, ponte para oportunidades estimulantes de reinserção social, será descurada. E os círculos viciosos reproduzem-se: o preso merecerá o castigo, mas também uma segunda e melhor oportunidade, sem a qual a regeneração não se fará.
Mais violência gera sempre violência.
Muito grata pelo texto, Carlos Narciso.