Balsemão morreu

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O PSD ficou sem o miliante nº1, devem estar todos muito tristes. Muitos escrevinham agora os elogios habituais na hora da morte. Balsemão marcou a vida de muita gente, nem sempre no bom sentido.

O que fazem os que lhe sobrevivem? Dançamos? Cantamos? Reflectimos? Choramos? Rimos? Lembramo-nos dos jornalistas assassinados para a profissão? Assassinados, como assim?, perguntarão. Sim, os despedidos e perseguidos, “condenados” pelo antigo patrão a morrer de fome. Sim, alguns morreram cheios de fome, na miséria, porque estavam na “lista negra” do antigo patrão.

Vão dizer que ele foi “jornalista”. Talvez tenha sido, num dia longínquo. Mas ele foi um homem de negócios, um capitalista focado em ganhar dinheiro. Frio. E tentou ser um político, mas sem carisma, nunca venceu uma eleição.

Lembro-me, por exemplo, de quando ele despediu Camilo Lourenço, director da revista Exame, na sequência de uma notícia publicada em primeiríssima mão nessa revista, em 2001, onde se alertava para actos de má gestão no BPN. Logo após a publicação dessa notícia, que fez a manchete dessa edição da Exame, Dias Loureiro conversou com Pinto Balsemão e a revista teve um novo director algum tempo depois e pediu desculpa ao BPN.

Passados estes anos todos, sabemos quem tinha razão e sabemos quem enganou, aldrabou, manipulou e quem encobriu tudo o que se passou no BPN, e já agora também no BPP.

OUTRO EXEMPLO

Depois de ter despedido Emídio Rangel,  foram nomeados novos directores de Informação (DI) e de Programas. O novo DI chamou-me ao gabinete. “Vais a Bilbau”, disse-me. A missão era cobrir uma conferência internacional sobre terrorismo. O tema era bom, mas estranhei porque “cobrir conferências” não era o estilo da SIC. Nós éramos uma redacção de contadores de histórias. Repórteres. Estranhei, também, porque não vislumbrei nenhuma razão lateral para aquela missão. Não tinha havido nenhum atentado de realce nos últimos dias, o 11 de Setembro ainda nem tinha acontecido…

Lá fui, já não me lembro quem foi o cameraman. Chegados a Bilbau, depois de pousar as malas no hotel, fomos até ao local onde a conferência ia decorrer. Credenciamo-nos no secretariado e forneceram-nos o programa das festas. Percebi então a razão daquela reportagem: o antigo primeiro-ministro português e conhecido empresário da comunicação social, Dr.Pinto Balsemão, ia botar discurso…

O meu patrão abria a conferência, num discurso pela fresca das 9 da manhã. Calculei que o senhor falasse para aí uma hora. Cheguei às dez em ponto, ainda a tempo de ouvir as palmas da assistência. Viu-nos, desceu do palanque, atravessou a plateia, saiu para o hall, pegou no telemóvel. Apostei com os meus botões em como o meu telemóvel iria tocar dali a 10 minutos. Tocou mesmo. Era o tal novo director de Informação: “então não gravaste o discurso do Dr.Balsemão?”

Uma hora depois, voltou a ligar-me. A agência EFE tinha o discurso gravado na íntegra. Eu só teria de ir buscar a cassete. Já estava paga. Fui buscar a cassete, mas não incluí o discurso do patrão na reportagem (quando regressei à redação, entreguei a cassete ao novo diretor).

Nessa noite, ao jantar, o telemóvel voltou a tocar. Era o antigo director de Informação, porque lhe tinham contado o que se estava a passar e queria dar-me um abraço de solidariedade. Obrigado, Emídio. Pulhices destas nunca aconteceram contigo.

MAIS UM EXEMPLO

A meio da década de 90, o jornalista Celestino Amaral foi parar à SIC. Durante anos a fio, o Celestino foi um daqueles assalariados sem regalias, no semanário Expresso. Passava recibos verdes regularmente, como se fosse um trabalhador eventual, mas cumpria horário como qualquer outro do Expresso. Na SIC, adoeceu.

Emídio Rangel fez questão que o Celestino fosse integrado nos quadros da SIC, mas a doença galopante mal lhe deu tempo para gozar as regalias inerentes, excepto a da baixa médica. Essa, o Celestino gozou ainda durante uns meses.

Balsemão beneficiou injustamente da imagem do “bom patrão”, do empresário que respeitava o critério jornalístico e que não se imiscuía nos conteúdos dos órgãos de que era proprietário e administrador. Uma mentira alimentada pelo próprio, que poucos contestaram.

(fique a conhecer melhor Francisco Pinto Balsemão)

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