UM ROL DE MUITAS HISTÓRIAS

Ainda recordo, como se fora ontem, a gravação para o programa Vamos Jogar no Totobola, da RTP, nas ruínas de Freiria, com guião de Manuel Arouca. Abriu a reportagem Rosa do Canto, na altura em início de carreira, a 26 de Agosto de 1987: – Guilherme Cardoso é arqueólogo desde pequenininho!

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O livro “Crónicas de Cascais”, de Guilherme Cardoso, foi lançado no dia 20 de setembro, no auditório do Centro Cultural de Cascais. A sessão contou comigo na apresentação da obra, convite que muito me honrou.

«Tinha», como ele escreve, «a Arqueologia no sangue». A grande sensação que, decerto, vai ficar da leitura atenta deste livro será a de uma vida cheia, que começa… de pequeno! Na verdade, desde muito cedo que despertou em Guilherme Cardoso o insaciável desejo de aprender, de querer saber, uma curiosidade sem limites.

O facto de seu pai ser fotógrafo teve, sem dúvida, sobre ele uma influência ímpar. Primeiro, porque fotógrafo tem que saber olhar, tem que descobrir pormenores invulgares, cativantes; segundo, porque estúdio fotográfico, como foi o de César Cardoso no centro da vila, não era mero «Sente-se ali! Olhe para aqui! Um sorrisinho! Já está!». Foi, durante anos, sala de muitas visitas, onde muito se conversava, muitas curiosidades se satisfaziam, muitas cumplicidades vinham a conhecer-se…

O «saloio» Guilherme Cardoso aprendeu tudo isso, desde pequeno. E ao longo deste livro se dá conta de como às leituras e à aturada pesquisa documental soube aliar o dom invulgar de saber ouvir, saber conversar. Muito do que neste livro se conta não consta em documentação escrita, consta, sim, na documentação oral, a dar-nos, deste modo, um panorama novo – estou certo! – sobre muitos aspectos da história e da vivência da gente, das pessoas de Cascais e não só. Recordo, por exemplo, José Vilar Júnior, o promotor do Edifício S. José, «um dos marcos na cultura e desenvolvimento da vila de Cascais e que, por razões que desconhecemos, continua a ser ignorado por quem de direito», escreve o autor.

A circunstância de – goradas que foram (felizmente!) as diligências para ser contratado como arqueólogo municipal em Cascais – ter ido, como arqueólogo, para a Assembleia Distrital de Lisboa permitiu, sem dúvida, um alargar de horizontes, quer porque o seu raio de acção era todo o distrito, quer, sobretudo, pela excelência da companhia de Maria Micaela Soares. Este livro complementa, de facto, com inúmeros dados inéditos, quanto a Dra Micaela nos deixou no livro Saloios de Cascais.

Mera leitura do índice – a dar conta dos 65 capítulos destes Retratos/Crónicas de Cascais – bastará para aliciar à leitura e documentar, desde logo, a riquíssima panóplia dos temas abordados. Cito dois, elucidativos, um, dos bons resultados de aturada pesquisa documental – a história da Igreja da Ressurreição; outro, dos ensinamentos que sabiamente se colhem da conversa atenta com quem, amiúde analfabeto ou quase, é um poço de recordações que nem jornais nem os livros registaram – é o caso de tudo quanto se refere à atividade dos canteiros da freguesia de São Domingos de Rana, sobretudo, e por aí ficamos a saber, por exemplo, quantos monumentos de Lisboa tiveram insuspeitada mão de cascalenses!…

Freiria, aquando do achado da carranca
S. José. Por não ter sido feita por um escultor, mas por um canteiro, a Câmara não a deixou expor.

Convicto estou que a muitos vai acontecer o que me aconteceu a mim: não descansei enquanto não saciei a minha curiosidade. Aqui se contam, naturalmente, muitas histórias que presenciei, porque… Guilherme Cardoso faz parte da minha vida.

2 COMENTÁRIOS

  1. Estive presente nesta bela sessão intimista (pelo aconchego do espaço e das palavras) e já comecei a ler as Crónicas de Guilherme Cardoso.
    Recomendo a toda a gente. O autor gosta pouco de falar, mas gosta de (e sabe) escrever convertendo a sua experiência em agradável leitura.
    Pelas palavras e imagens que nos deixa, ficamos com a noção de que ele é mesmo “arqueólogo desde pequenininho”.
    Nos mais pequenos detalhes se evidencia essa curiosidade de conhecer o que a sensibilidade, e os olhos treinados, facilmente descobrem como matéria de interesse.
    Se o Prof. José d’Encarnação o ensinou, como percebemos na apresentação que fez do livro, Guilherme Cardoso soube aproveitar esses ensinamentos e retribuir em fiel Amizade. É também um grande Arqueólogo.
    E depois a Amizade é uma das mais bonitas manifestações de solidariedade e empatia que os tem unido nos mais diversos projectos, porque muita parceria têm feito em importantes trabalhos arqueológicos locais
    Ouvi assim falar de saloios, de arqueologia, de pedreiras abundantes, em duplicado. Na assistência estava um dos canteiros que, como muitos outros, “exportou” obra talhada nas pedras da região e que tem também obra escrita sobre o património local e a vivência dos saloios: Celestino Costa.
    Se quiserem ter uma ideia de quem é, observem a primeira das imagens que ilustram este texto: é o senhor mais à direira, com o seu boné e camisa de xadrez.

  2. Bem hajas, Helena, pelo eco, que relança o que se escreveu e se disse. Um livro que apetece ler duma assentada para, depois, se voltar atrás às páginas que mais nos interessaram. Abraço!

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