Se tivéssemos passado o dia a ler jornais e a ver televisão em Portugal, ficaríamos com a ideia de que estamos à beira de uma guerra aberta com a Rússia. Talvez seja mesmo isso que está a acontecer: não (ainda) nos campos de batalha, mas já no espaço mediático.
Os títulos sucedem-se, quase em uníssono: drones russos a violar espaços aéreos, sabotagens eletrónicas, interferências em sistemas de navegação, ameaças veladas. Não importa se existem dados técnicos que comprovem a origem destes incidentes. Seria interessante os jornalistas darem-nos pormenores que pudessem credibilizar as suas narrações, tais como, por exemplo, modelo dos drones, rota de voo, fabricantes, etc. O essencial é que a conclusão surge pronta: foram os russos. Ponto final.
Nos sites que observámos hoje, RTP, SIC e CNN Portugal, assim como manchetes da imprensa escrita, a narrativa é uma só: Moscovo testa os limites da NATO, Donald Trump ora ameaça ora recua, e a Ucrânia continua a ser apresentada como linha da frente de uma guerra que, a cada título, se aproxima de nós aqui na ponta mais ocidental da Europa.

É curioso notar o que não se noticia: o governo russo desmentiu que os drones sejam seus, mas esse desmentido raramente merece destaque. A lógica é simples: se a Rússia fala, é propaganda. Já uma acusação vaga feita contra a Rússia basta para encher noticiários inteiros.
O resultado é um ambiente de saturação mediática. O público não retém detalhes, apenas a sensação difusa de perigo: “a Rússia vai atacar-nos”. É uma estratégia eficaz, que cumpre várias funções políticas: justifica a escalada de sanções, prepara a opinião pública para o reforço orçamental em matéria militar e normaliza a ideia de que um confronto direto com Moscovo é inevitável.

A guerra, portanto, já começou, mas no campo das manchetes e das imagens. É uma guerra de perceções, que condiciona o que pensamos e sentimos antes mesmo de os factos estarem apurados.
Convém estarmos atentos: não é só nas trincheiras que se decidem os conflitos. Também no espaço mediático se ganha ou perde a capacidade de resistir ao medo e ao pensamento único.



