EU PAGUEI

Fui à Ópera. Não é um acontecimento qualquer ir à Ópera nos claustros de um mosteiro de que só há dois exemplares em Portugal: um em Laveiras-Caxias, outro em Évora.

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Não, não vou falar da regra rígida dos monges cartuxos, nem tão-pouco criticar demais a inutilidade de procedimentos extremos para servir a divindade. Afinal os reis de então e os senhores que tanto a veneravam, banqueteavam-se com a caça abundante das coutadas anexas.

Eram os senhores dos homens, claro. Qualquer bom senhor das almas devia dispensar sacrifício humano. Ora, viver miseravelmente em grutas, jejuar mais do que a conta, não comer carne nem o melhor da matéria prima que engalanava as travessas dos senhores, devia ser considerada uma ofensa aos princípios de qualquer religião que se prezasse, se todas as hierarquias tivessem dignidade.

Ontem como hoje, os pobres precisam sentir as dificuldades de que os ricos estão isentos, se querem atingir o céu…

Fui à Ópera nos claustros do Convento da Cartuxa em Laveiras-Caxias e paguei 50  € por bilhete (comprei dois) no âmbito da OPERAFEST 2025. Queria satisfazer a vontade de mais uma representação cantada de La Traviata. Gosto da inspiração do libreto em A Dama das Camélias, do romantismo dos amores de Violeta e Alfredo e ainda mais da música maravilhosa de Verdi.

Comprei os bilhetes na FNAC de Oeiras. Para escolha dos lugares foi-me mostrada uma sala coberta em anfiteatro, onde podia apontar, de entre os já poucos lugares disponíveis,  aqueles que mais me agradavam.

Não sou obrigada a saber o estado de recuperação ou degradação do monumento, apesar de ter ouvido que a igreja estava restaurada. Está, mas o espaço envolvente, que foi tão elogiado na publicitação do espectáculo, é um deserto de ruínas. Refiro-me aos claustros, como a imagem mostra, tão degradantes como as cadeiras oferecidas para um bilhete de 50 €.

Bom, talvez nem toda a gente pagasse e não tenha de que se queixar, mas eu que paguei, tenho. E sinto que é defraudar as expectativas do público, mostrar uma sala coberta e depois “oferecer-lhe” um espaço feio ao ar livre. Nem as casas de banho, contentores para os trabalhadores das obras, me chocaram tanto – dado o estado incipiente da recuperação do Convento – como o espaço partilhado pelos utentes do evento.

Por acaso não chovia, mas caíam uns discretos pingos que toda a gente viu nos pára-brisas dos automóveis, estacionados pelo menos a meio quilómetro de distância.

Que havia estacionamento, ouvi dizer. Havia, para alguns afortunados a quem foi permitido entrar.

Se é para apresentar espectáculos de nível, dar uma caiadela nos claustros não faria mal. Os amantes de grafitos adoram telas em branco para voltar a pintar e o ambiente da Ópera merecia um ar mais limpo.

Cadeiras de plástico que faziam doer o corpo (digo o cóccix) também são um atentado à dignidade do público que paga 50 €. Eu paguei.

As claúsulas referidas no verso do ingresso, como calculam, vão no sentido das proibições ao público e salvaguarda dos emissores dos bilhetes, que remetem obrigações e responsabilidades para o promotor, OPERA DO CASTELO, em parceria com o Município de Oeiras. Mas a que responsabilidades se referem, se até as escadas de acesso ao recinto estavam em estado de degradação e podiam ter causado uma queda a pessoas com dificuldades de mobilidade?

É bonito assistir a um espectáculo nas ruínas cuidadas de um monumento antigo, se  salvaguardado o mínimo de condições para um público que gosta de Ópera, de Concertos.  Eu gosto, privei-me de alguma coisa em benefício de dois bilhetes e paguei 50 € por cada um. Afinal na vida temos de fazer opções.

Fico admirada de não conhecer mais queixas, o que me leva a considerar que talvez houvesse quem não pagasse…

Vamos ser sinceros e deixar os seguidismos, mesmo que amplamente publicitados. Os “belos” claustros do Convento da Cartuxa não têm condições para eventos semelhantes, ao contrário de outros lugares privilegiados do Concelho de Oeiras. Há boas e más decisões, esta pertence à segunda categoria.

Além das grandes interpretações de Darija Augustan e Ermin Ascéric nos papéis principais, de um belo desempenho da Orquestra Filarmónica Portuguesa, do esforço sempre louvável de quem ergue um espectáculo, é preciso não camuflar a verdade.

Os cenários eram pobres – e não venham dizer que não compreendo as novas tendências – o palco ficava a uma altura mínima que impedia a visão a partir de certos lugares da “sala” plana.

Atendendo à relação qualidade-preço, seria bonito respeitar um público a quem foram criadas expectativas de um espectáculo inesquecível num espaço elegante e abrigado. Quem, como eu, julgava ter esse retorno, não ia preparado para apanhar uma constipação.

Eu paguei. Posso protestar.

E estou a ser branda, acreditem, em atenção à equipa jovem envolvida neste projecto e aos recepcionistas que, com a maior simpatia e eficiência, “guardavam” a linha de fronteira enquanto o elenco ensaiava.

(outras crónicas da mesma autora em Helena Ventura Pereira, autor em Duas Linhas)

2 COMENTÁRIOS

  1. Cara cronista parabéns pela simpatia pela correção do texto e pela dignidade do reparo que respeita o trabalho e o mérito de quem deve. É de lamentar tudo o que reporta porque sempre acusam o público de ser embrutecido porque quer e não porque não pode chegar a tudo o que gostaria de ver.
    Cumprimentos.

  2. Ópera requer ambiente acolhedor e confortável. O que a Helena denuncia uma enorme falta de sensibilidade, para não dizer de ‘incultura’. Sim, pode – e deve-se! – ‘democratizar’ a ópera, no sentido de a querer levar a um público amplo; mas o caminho assim tão toscamente trilhado não serve, de facto, esse intento. Fez bem Helena em vigorosamente assim o escalpelizar.

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