A Volta a Portugal em Bicicleta deste ano conta com a participação de uma equipa que representa o Estado de Israel. Não se trata apenas de uma formação com atletas israelitas no plantel – aliás, não é claro sequer se algum ciclista é originário de Israel – mas sim de uma equipa que se apresenta como embaixadora desse Estado. As camisolas não ostentam logotipos de patrocinadores comerciais, apenas a palavra “Israel”, em letras bem visíveis, como um cartaz ambulante. Puro marketing político.
Esta presença, em qualquer circunstância, já seria politicamente carregada. Mas, no momento atual, ultrapassa os limites do aceitável. O Estado de Israel está envolvido numa ofensiva militar devastadora sobre Gaza, condenada internacionalmente como desproporcionada, destruidora e genocida. Milhares de civis foram mortos, bairros inteiros arrasados, hospitais bombardeados, campos de refugiados obliterados. Milhares de praticantes de todas as modalidades desportivas já foram mortos. A par da destruição, continua a ocupação brutal da Cisjordânia, o regime de apartheid sobre os palestinianos, a colonização forçada, a espoliação quotidiana. Tudo isto com a proteção diplomática dos Estados Unidos e a cumplicidade passiva de muitos governos europeus.
Neste cenário, aceitar a presença de uma equipa que se limita a exibir a marca “Israel”, é aceitar a instrumentalização do desporto como ferramenta de branqueamento. É sportswashing puro e duro – a tentativa de encobrir crimes e melhorar a imagem internacional de um Estado através da associação a eventos desportivos, simpáticos e aparentemente apolíticos. Mas o desporto nunca é neutro. Quando uma federação ou uma organização abre a porta a este tipo de manobra, escolhe um lado. E neste caso, escolheu mal.
Portugal não devia permitir que a Volta a Portugal se tornasse numa plataforma de propaganda de um Estado que, neste momento, viola sistematicamente o direito internacional e os direitos humanos. A Federação Portuguesa de Ciclismo, a Podium Events (organizadora da Volta) e o próprio Governo deviam ter tido o bom senso – e a coragem – de dizer não.
Não vale a pena virem dizer que “o desporto une”, que “o desporto não é político”, porque a história do desporto está cheia de boicotes políticos. Na verdade, o desporto está a ser usado como arma de arremesso político. Permitir que uma equipa com o nome e a bandeira de Israel, financiada diretamente com esse propósito propagandístico, desfile pelas estradas de Portugal é uma provocação. E como tal deve ser recebida. Esperemos que não faltem vozes para essa contestação, bandeiras da Palestina nas bermas da estrada e nas metas. Ou pregos na estrada a furar as rodas das bicicletas sionistas.



