MULHERES E MÃES. HEROÍNAS DO QUOTIDIANO

(Acerca de um monumento dedicado às Mães)

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A imagem que capta a imensa ternura de um gesto constitui-se como celebração de todas as mulheres e mães que ficaram sem nome nas tabelas da História, sem nome de Rua, sem busto na Praça, quando não chão de túmulo já esquecido.

Mães de aldeia e de cidade, esmoleres pela natureza de ser do coração atento e compassivo, bússola que guia o barco do navegar de seus filhos, astro se quisermos, estrela que se levanta com a alba e se apaga, ao entardecer, devagarinho. Fada do lar, porque não?

Os melhores sonos de nossas vidas em seu colo se dormiram. As mais inquietas noites por ela foram veladas. Mesmo na distância, aconchego sentido, mãos a acenar quando para longe se partia, olhos molhados, a mesa posta no regresso, braços estendidos, outra vez as lágrimas, mas de riso, riso aberto, feridas curadas, tantas vezes, quem sabe, na envolvência de um gesto.

De infinita graça a singeleza do monumento que ali se pousa em lugar tranquilo, onde o mistério reside e a poesia, jardim silencioso que só as abelhas habitam e as borboletas e as raparigas quando estão enamoradas e lhes apetece colher uma rosa em manhã fresca para prender no cabelo ou um ramo de violetas ou a coroa de um malmequer – mal-me-quer-bem-me-quer – e as pétalas caindo, uma-a-uma, no regaço, ou a pétala de rosa que guardam marcando as páginas de um livro.

José de Oliveira Ferreira (1883-1947), o inspirado autor, compõe esse ternurento quadro que representa uma jovem mãe, qualquer mãe, velando o sonho de um filho, qualquer filho, que dorme em seu aconchego, enquanto ela suspende o lavor das agulhas de bordar, cujo fio se desliga do novelo abandonado no regaço e, de mãos postas, eleva ao Céu uma prece.

A estátua, galardoada com o segundo lugar na XXVII Exposição da Sociedade Nacional de Belas Artes, foi oferecida pelo autor à cidade de onde era natural sua mãe e foi implantada no Jardim das Mães, em 15 de Novembro de 1946. Na sua base, a inspirada inscrição de onde se solta a habitual titulação: “O melhor sono de nossa vida, em que / na nossa alma, docemente penetra Deus”.

*Maria Heloísa Fragoso de Matos Cid. Natural de Oliveira do Hospital (1908-1968)

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