O anúncio de Emmanuel Macron de que a França irá, finalmente, reconhecer o Estado da Palestina surge numa altura em que a destruição em Gaza atingiu níveis sem precedentes. O presidente francês diz-se “chocado” com a atuação israelita. Mas esse choque, além de tardio, parece ignorar mais de 70 anos de ocupação, colonização, repressão e humilhação quotidiana do povo palestiniano. O que está a acontecer hoje não começou em 2023, nem em 2006, nem sequer com a ocupação de 1967. É o culminar de uma longa cadeia de abusos normalizados e de cumplicidades silenciosas.
Durante décadas, as potências ocidentais — incluindo a França — mantiveram a ficção de que defendiam a paz no Médio Oriente, promovendo a “solução dos dois Estados”. Mas nunca houve verdadeira vontade política para que essa solução saísse do papel. O que houve, isso sim, foi um apoio constante, direto ou indireto, ao avanço territorial de Israel: colonatos ilegais na Cisjordânia, anexações como a dos Montes Golã, ataques constantes em solo sírio ou libanês, e toda a sorte de violações dos direitos humanos contra a população palestiniana, desde detenções sem julgamento até castigos coletivos.
O trágico ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023, deve também ser compreendido como uma válvula que rebentou com a pressão contínua exercida sobre Gaza. Gaza vive há quase duas décadas sob bloqueio total, privado de liberdade, de dignidade e de futuro. Nesse contexto, a explosão da violência foi o reflexo brutal de uma situação insustentável. Mais ainda: alguns analistas e meios europeus colocam a hipótese – inquietante, mas não inédita em contextos de guerra – de que o governo de Netanyahu terá deixado deliberadamente que o ataque ocorresse, ou mesmo o tenha provocado indiretamente, como pretexto para a brutal ofensiva militar que se seguiu.
…e Portugal dos políticos pequeninos
A reação de Israel tem sido desproporcionada, assassina e devastadora. Mas não menos chocante tem sido o silêncio europeu, ou a sua retórica vazia. Portugal, por exemplo, continua a invocar a necessidade de uma “posição coordenada da União Europeia” para reconhecer o Estado da Palestina. Essa posição comum nunca existiu, e a França, ao agir agora de forma isolada, confirma isso mesmo. O argumento português é de uma indignidade e pequenez política absolutas.
O que se revela, no fundo, é a inexistência de uma verdadeira política externa europeia para o Médio Oriente. Cada Estado move-se ao sabor dos seus próprios cálculos geoestratégicos, e a suposta neutralidade europeia apenas serve, há décadas, para legitimar a ocupação israelita. Macron pode agora dizer que “a França está do lado da paz”, mas a paz verdadeira exige coragem política – não apenas para reconhecer um Estado palestiniano, mas para pôr fim à impunidade de Israel. E para isso, nem França, nem Portugal, nem a maioria da Europa estiveram, até hoje, à altura da História e da decência.
Os dias passam e os palestinianos começam a morrer de fome, mais do que das bombas diárias que Israel continua a lançar. Ainda vamos ver os vivos começarem a comer os mortos.



