Quase já pertence à poética de um gostoso imaginário a figura romântica do barbeiro de aldeia, sangrador de ofício alguma vez, chamado em apertos para lancetar leicenços, deitar sanguessugas que se embriagassem com o sangue envenenado de cristão ou extrair um apoquentador queixal que não deixasse roer as castanhas piladas nas demoras do Inverno.
Basta lembrar o velho “barbeiro de Lamosa” que vagueava pelas aquilinianas Terras do Demo, vai já a lonjura de um século, saquitel com os instrumentos do ofício aqui e além pousado, respondida a chamada, num descuidoso remanso sobre um qualquer balcão de botequim.
Basta lembrar também o alegre figurado dos bonecreiros de Estremoz, de Gaia ou de Barcelos.
Menos imaginal vem a figura desse outro barbeiro de aldeia, de mais breve distância, representação igualmente poética construída agora quase tão só pelos retratos que ficaram de familiar evocação.
Vinham nas tardes de Sábado os lavradores. Vinham também no Domingo, de manhã, antes que o sino da torre desse as habituais três badaladas que marcavam os passos do abade a caminho do altar.
Sentavam-se no banco corrido do aposento rasteiro aberto para a rua e esperavam que chegasse a sua vez.
As horas tinham a duração dos dias da antiga criação do mundo. Nas conversas perpassava o dia-a-dia em reportório, tal e qual como as mulheres no lavadoiro.
Cortava-se o cabelo quando o rei fazia anos, nesse antigo modo de dizer, quando as repas não cabiam já dentro do chapéu. O fazer da barba tinha vez de oito em oito dias, que isso ficara tabelado no contrato costumeiro assinado de cruz entre dois copos, na taberna, a honra da palavra bastando por chancela.
Às vezes, uma mãe trazia um cachopo pela mão e pedia ao barbeiro para cortar à escovinha o cabelo do rapaz. Pagava-se ao barbeiro pelo foro de um ano um modesto alqueire de pão.




