Escultura feita poesia

Laranjeira Santos viveu entre 1930 e 2024, tinha ateliê nos Coruchéus, mas também morava e, sobretudo, esculpia na sua quinta na Chilreira, concelho de Sintra, e é, muito objetivamente, um dos mais relevantes escultores portugueses da modernidade, sendo da sua autoria a primeira escultura verdadeiramente moderna com implantação pública na cidade de Lisboa, onde teve como colaborador o arquiteto Rodrigues Fernandes. Trata-se de um monumento comemorativo da primeira travessia aérea do Atlântico Sul, por Gago Coutinho e Sacadura Cabral, implantado primeiro junto à Torre de Belém. Hoje esta importante escultura está no topo da avenida da Igreja, junto à igreja de São João de Brito.

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Importa falar um pouco da sua obra, sem dúvida um exercício gratificante, mas não unívoco, já que serão várias as abordagens possíveis. Há uns anos, num texto que alinhavei sobre a sua vida e obra, procurei uma possível via de análise e foi relativamente fácil elencar uma lista de elementos que podem permitir identificar e levar à melhor compreensão do trabalho deste escultor. Apurou-se que estes eram tantos e de tal forma variados que permitiam o curioso exercício de os trabalhar em forma de dicionário/léxico, obviamente limitado pelo espaço disponível, mas também pelo facto de se ter optado apenas por uma palavra por letra, o que resultou no texto que se designou como Dicionário de Laranjeira Santos.

A triagem feita aquando da elaboração desse mesmo dicionário trazia, no entanto, riscos. Por exemplo, logo na primeira das vogais, a escolha do termo “Amigos” invalidava, desde logo, a palavra “Amor”, uma constante na vida e obra de Laranjeira Santos.

Na letra D a opção, que se sentia claramente obrigatória pela suma importância da palavra “Desenho”, invalidou outras, certamente não tão importantes, mas, ainda assim, muito significativas como “Diálogo”, um dos temas que o autor sempre privilegiou, a dialética entre dois seres, sejam estes humanos ou animais, jamais inanimados, que interagem, como na série realizada da década de 90 do século XX que apelidou de “Blá – blá – blá – blá”.

Mas, se este diálogo começa entre a peça e o autor, passa depois para a relação entre a peça e o seu público fruidor, mas pode também remeter para a relação com o espaço em que a mesma se insere: galeria, casa de colecionador/decoração, espaço público, jardim, etc. Uma palavra também ausente da letra D foi “Dualidade”, já que as suas peças jamais têm significados unívocos, mas remetem para conflitos que chegam a ser quase dramáticos, num trabalho em que o artista constrói verdadeiras dramaturgias escultóricas.

Outra lacuna que se tentou também sanar foi a inexistência do termo “Prémio” na sua devida localização, havendo a referir, de entre os inúmeros que recebeu, o Prémio Nacional de Escultura em 1955, o prémio do Secretariado Nacional de Informação no “Salão dos Novíssimos” em 1963, o 1.º Prémio do Simpósio Internacional de Escultura em Ferro organizado pela Câmara Municipal de Abrantes em 1996, ou o prémio de aquisição da Academia Nacional de Belas Artes em 2002, que viria a integrar, entre vários outros galardões que lhe foram outorgados.

Mas comece-se pelo princípio:

O percurso italiano

Para a compreensão do espírito de Laranjeira Santos não será despicienda uma análise do seu percurso, nomeadamente a frequência da Escola de Artes Decorativas António Arroio, onde, entre muitos outros, teve por companheiros alguns dos que viriam a ser os artistas plásticos mais marcantes da segunda metade do século XX e princípio do século XXI, porque felizmente muitos ainda estão entre nós, personalidades como o notável ceramista Querubim Lapa, o pintor José Escada, o pintor e designer José Cândido, o arquiteto Augusto Silva ou o cenógrafo António Casimiro.

Depois veio o percurso italiano que lhe moldou, indubitavelmente, quer a Arte, quer o pensamento, quer o próprio carácter, pelo que não se resiste à comparação deste com os príncipes do saber da Renascença. Aqui, além da escultura, cultivou também e de forma muito marcante o desenho, nomeadamente o desenho erótico.

É possível encontrar nas suas obras, quer deste período, quer posteriores, várias atmosferas como a veneziana, que passa sobretudo nas complexas eleições cromáticas, criadoras de ambiências muito próprias; a escala florentina, sem dúvida derivada da ordenação volumétrica da cidade perfeita; mas também a ironia, os contrastes e até o sarcasmo da cidade dos Papas.

Uma nota fundamental em termos de significância é o finíssimo sentido de humor que é evidenciado nas suas esculturas. Encontros e desencontros dão-se mesmo em formas particularmente abstracionadas, que ora se atraem, ora se repelem e que remetem para o eterno discurso da paixão, onde as relações passam por um absurdo, mas necessário, percurso de amor/ódio, que se pode sentir, mas que jamais se pode explicar.

Desenhando

Antes que tudo, há um exercício perpétuo da linguagem do desenho. Como diria Le Corbusier, desenhar é antes de mais observar. Sobre a importância seminal do desenho na obra de Laranjeira Santos cite-se a definição de Juan José Gomez Molina, na importante obra Las Lecciones del Dibujo, quando afirma que «O desenho estabelece-se sempre como a fixação de um gesto que torna concreta uma estrutura, pelo que se alia a todas as atividades primordiais da expressão e construção ligadas ao conhecimento, à descrição das ideias, às coisas e aos fenómenos de interpretação baseados na explicação do seu sentido por meio das suas concretizações.», o que é inteiramente aplicável aos desideratos do escultor em apreço. É através do desenho que começa por se exprimir e é este que funciona como o ponto de partida para todas as suas obras.

Não obstante, o desenho na obra de Laranjeira Santos funciona também de forma autónoma e como um fim em si mesmo.  Efetivamente, muitos dos seus desenhos não são meros estudos para putativas esculturas, mas uma forma de comunicar, de se comunicar, o que permite explicar os seus inúmeros desenhos onde o artista se confronta com os seus modelos, como o havia já feito o génio de Málaga, Pablo Picasso, sendo, no entanto, o seu traço claramente diferenciado.

Os desenhos tornam-se, assim, uma forma de comunicação alternativa, também cultivada por Laranjeira Santos, que os expõe com particular prazer. Aqui, uma vez mais, a mulher tem um papel preponderante. Veja-se, como magníficos exemplos, as séries de composições realizadas a tinta-da-china nas décadas de 60 e 70 ou os desenhos, ainda mais remotos, que realizou durante a sua já referida passagem por Itália.

Importa igualmente analisar o modelado do traço. Verifique-se a forma como  este vai evoluindo: começa por ser forte, curvo, mas grácil, com claras afinidades com as suas esculturas bojudas e, posteriormente, torna-se muito mais fino, evolui para a linha, mais geométrica, mais rigorosa e, sobretudo, muito mais contida.

Modelação / Forma

A noção de contenção, de simplicidade, é seminal a todas as esculturas. Há um permanente desejo de simplificação, um ater-se às formas básicas e puras, uma fuga a gongorismos inconsequentes, um abandono do supérfluo e uma esconjura do desnecessário. Desta forma, a expressão não se perde, fica mais forte.

Um dos aspetos mais relevantes que a Escultura deve ter é a capacidade de inter-relação com os seus fruidores, sobretudo quando se trabalha no vulto-perfeito.

As massas são modeladas de modo a criar volumetrias que irão atuar ao nível do subconsciente. As formas obtidas, mesmo sendo abstratas, mimam comportamentos humanos, nomeadamente estados de espírito, atitudes conspícuas, relações pessoais, etc., sendo a função do observador carregar a peça com toda a sua experiência vivencial e, a partir daí, ele irá identificar, ou sentir apenas, as situações que o Artista meramente sugeriu.

Há, pois, que verificar a feição como todos, desde os púberes jovens aos mais idosos, se relacionam com as modelações de volumes que se interpõem no seu caminho. Se haverá uma rejeição ou se, pelo contrário, haverá uma apropriação. Relação essa que não passa apenas pelos seres humanos, mas até pelos próprios animais, que nelas podem descansar, ou dar-lhes a escala. Quem passa pelas esculturas de Laranjeira sente muitas vezes a necessidade de as experimentar, de circular à sua volta, de lhes tocar, ou mesmo mais prosaicamente de sentir que são palpáveis.

Não se resiste a passar para um registo muito pessoal e até intimista e lembrar uma visita ao ateliê do Escultor na companhia de uma amiga comum, que, enquanto este nos mostrava as suas mais recentes produções, se entretinha, tão discretamente quanto possível, a sentir as esculturas expostas, passando as suas mãos, de forma particularmente lúbrica pelas superfícies ora frias da pedra e sobretudo do bronze, ora aquecidas das fibras de poliuretano, ficando muito particularmente embaraçada, qual criança de escola apanhada em flagrante, quando se apercebeu que estava a ser observada nas suas secretas manifestações. E acredita-se até que teria mesmo corado, se ainda existisse alguém que corasse.

Esta minha amiga é, de alguma forma, bem representativa de todos nós, os que vivem a obra de Laranjeira Santos e que tanto fruímos com as tão diversas experiências sensoriais que este Mestre nos proporciona.

Explorando novos materiais

Registe-se que, embora jamais a especulação teórica tenha estado arredada da mente de Laranjeira Santos, este foi, sobretudo, um homem de ofício, um operativo, alguém que partiu do trabalho oficinal baseado na tradição dos antigos mestres escultores, mas que não parou no tempo, antes pelo contrário, sempre foi experimentando novos materiais, dos quais soube extrair novas formas, jamais ousadas.

A forma como interagiu com os materiais é exemplar e apetece voltar a citar Luigi Pareyson, que parece falar do processo escultórico de Laranjeira Santos, quando este afirmou que « […] se a matéria é nova, [o artista] não se deixará impressionar pela audácia de certas sugestões que parecem dela sair espontaneamente e não recusará a coragem de certas experiências, nem se furtará ao dever de a penetrar para melhor se evidenciar as possibilidades […]»

A opção do escultor pelos novos materiais plásticos é facilmente compreensível, já que estes são dotados de grande resistência e durabilidade, mas são escolhidos devido à sua ductibilidade tão própria à escala das esculturas, e porque se adequam na perfeição a uma modelação ágil que apela, como se viu, à sensorialidade.

Ao ligar os seus objetos tridimensionais, obtidos com uma enorme sensibilidade, com cores particularmente ativas, o autor chegou mesmo a correr o risco de conflitos de perceção, com resultados inesperados, mas impactantes, caso da escultura Anunciação, onde, tendo pegado na tradicional iconografia da Virgem Maria, a soube transformar de forma extraordinária, tão inesperada, quanto inovadora.

A cor

Por fim, refiram-se as sensações cromáticas que as suas obras transmitem.

Sem os barroquismos, ou procura de naturalismos, mas com uma força imensa, ao qual não são alheios os cambiantes da paleta que usa e que utiliza sem filtro na composição e que dá ao emprego da cor um papel altamente primordial. É esta que reflete os estados de espírito, complementando o trabalho da forma na transmissão de emoções.

A cor pode causar sensações visuais que muitas vezes remetem para memórias passadas, para familiaridades com o objeto, sensações que derivam não só da forma, mas até das sonoridades que são transmitidas através de esquemas cromáticos / musicais e que o subconsciente poderá identificar. Efetivamente, uma das originalidades da obra de Laranjeira Santos é a forma como sempre soube usar a cor para dar dinamismo às suas esculturas. É através da cor que muitas vezes as peças transmitem emoções ou estados de espírito. Efetivamente através de uma paleta cromática rica de cambiantes, de opções entre cores quentes ou frias, de cores ácidas ou doces, de cores ousadas, saturadas, as massas são complementadas com policromia e as suas esculturas saem profundamente valorizadas e com novas possibilidades de leitura. Há, finalmente, um inegável sentido lúdico no uso da cor.

O repto

A obra de Laranjeira Santos está exposta em vários locais, nomeadamente em Lisboa e, também, na Figueira da Foz, cidade onde existe mesmo um espaço museológico a este escultor dedicado, o Núcleo de Arte Contemporânea Laranjeira Santos / Castelo Engenheiro Silva, que urge visitar. Está, no presente, a ser preparada uma exposição dos seus desenhos eróticos e não só, na Academia Nacional de Belas Artes, de que era académico de número.

Mas falta, ainda, a Laranjeira Santos a pública homenagem que lhe é devida. Não se pense que o que aqui é pedido é uma condecoração póstuma, ou algo do género. Falta, antes de mais, devolver a escultura relativa à 1.ª travessia aérea do Atlântico Sul ao seu local de origem, ou ainda melhor ainda, que se viabilize a execução do projeto original previsto, no local e na escala pensada originalmente, que seria, sem dúvida, uma enorme mais valia artística para a cidade. Faltará, por fim, cumprir um dos sonhos do Escultor: a passagem a uma escala significativa e a instalação pública de uma das suas mais belas e comoventes obras: a Pietá.

Fica aqui lançado o repto.

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