A DECAPITAÇÃO DO “SALVADOR”

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recriação gráfica do cartaz do espetáculo

Enevoada estava a sala. Sim, já o suspeitávamos. Ele haveria de surgir, numa manhã do nevoeiro. Diria quem era. Ou, simplesmente, iria preferir que descobrissem a sua identidade.

Sabia-se, porém, que viria. Era uma certeza. Queria-se mesmo que viesse. Para dissipar nevoeiros. Para repor legalidades. Para acabar com aldrabões…

Natália Correia lutou. Nunca conseguiu. Agora. mui oportunamente – mui oportunamente, repita-se! – o drama sobe à cena e aí está no Mirita Casimiro. A 186ª do Teatro Experimental de Cascais.

Até o dia 27, de terça a sábado às 21 e domingo às 16. 110 minutos, sem intervalo. No dia 20, conversa com o público; a 26, com língua gestual portuguesa.

Ousada encenação de Ana Nave. Arrojada cenografia de Fernando Alvarez. Interpretam-na 38 alunos finalistas da Escola Profissional de Teatro, em Prova de Aptidão Profissional, ‘apoiados’ por três elementos do Teatro Experimental de Cascais (Luiz Rizo, Teresa Côrte-Real e Sérgio Silva).

A última ‘fornada’ saída das mãos de Carlos Avilez. Por isso, em homenagem, está vaga, a meio da primeira fila, a cadeira donde o Mestre dirigia os ensaios. É a «cadeira do Carlos».

Por ser Prova de Aptidão Profissional, as falas foram equitativamente distribuídas pelos estudantes e sobre a atuação de todos e cada um cabe ao júri apreciar. Há, porém, dois aspetos a focar desde já: o geral à-vontade demonstrado e, sobretudo, a boa dicção, elemento fundamental num actor e a que nem sempre se dá a atenção devida.

Sempre inesperada a criação do espaço cénico. Neste caso, o sábio recurso a vários planos realça a atuação e revela-se engenhosa a instalação de uma segunda cena em palco, qual cabine de robertos.

Encantam – como sempre, aliás – os figurinos, nados da incomensurável imaginação criativa de Fernando Alvarez. Tudo certo!

Os anjos ou os demónios ou os espíritos, de branco trajados, que revolteiam (irrepreensível coreografia de Rita Spider) no começo, no final e que, inopinadamente, de vez em quando reaparecem – são, no fundo, o longínquo eco dos coros da tragédia grega.

Tragédia, esta, consubstanciada agora na crua decapitação do «salvador». Tragédia consubstanciada no coro final, de todos, num grito uníssono: PAZ! PAZ! PAZ!

Os ramos de flores oferecidos pelos familiares aos finalistas eloquentemente sublinharam, estou certo, este angustiante brado final. Realce também para o precioso conjunto de textos incluído na pasta de apoio ao espectador.

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