Mercê dessa circunstância, mercê do imaginário que se lhe associa, mercê da participação activa de quatro paróquias, mercê da participação de um número crescente de romeiros, o Município de Tondela apresentou, em 2023, a sua candidatura à integração do evento no Inventário Nacional do Património Imaterial, pretensão que se concretizou no dia dezanove de Janeiro de 2025 atendendo às identidades das comunidades envolventes, a esses ecos da profundidade temporal de uma história e às práticas comunitárias que se lhe associam.
A Festa das Cruzes realiza-se anualmente na Paróquia de Guardão, essa aldeia embebida na Serra do Caramulo, na encosta de nascente, mas nela participam, desde há mui longo tempo, ali designado como “tempo de memória”, as paróquias de Castelões, Santiago de Besteiros e Campo de Besteiros.
Os fundamentos da festa assentam nesse aureolado tempo cristalizado como lenda, o tempo histórico das lutas entre Mouros e Cristãos que por ali se desenrolaram.
As gentes de Guardão, assoladas pela Mourama, terão solicitado a ajuda de seus vizinhos, já que perigo grande se avizinhava.
Vieram os homens das comunidades já nomeadas que, unidos sob o signo da Cruz, emblema da protecção divina, cruzes alçadas, quem sabe, como bandeira, põem em debandada o inimigo garantindo para sempre a segurança das pessoas e dos bens.
A lenda, com o seu poético virtuosismo, rememora o abraço dos soldados ao fim da peleja e a promessa feita de encontro festivo, enquanto o mundo for mundo, nesse dia para sempre lembrado da Ascensão do Senhor.
E ano a ano, na Quinta-feira da Ascensão, lá vinham as gentes dos três povos amigos evocar essa história, cumprir o voto, cumprir a homenagem à Senhora dos Milagres da igreja de Guardão.


Hoje, a festa tem lugar no sábado imediato à antiga quinta-feira.
As três paróquias empenhadas sobem a serra e encontram-se no adro da capela de S. Bartolomeu. E daí partem em procissão, cruzes várias de promessas ornamentadas de oiro e de flores, alevantadas, passo marcado pelo rezar de Ladainhas, até ao Largo do Cruzeiro, junto à igreja de Guardão, onde outras Cruzes esperam a chegada.
Ao chegar das Cruzes das paróquias mais distantes, ouve-se o tocar do sino. Saem da igreja as Cruzes de Guardão e cumpre-se ali o velho ritual do “tocar das Cruzes” à medida que vão chegando, uma a uma, as outras Cruzes.
No fim, unem-se todas as Cruzes num abraço, mimetizando o abraço dos soldados que, há mil anos já passados ,se abraçaram. Há, depois, missa e procissão. Segue-se toda a festa dos sentidos: a música, a dança, os cantares, as merendas à sombra do arvoredo. Um povo inteiro que partilha a festa!… De longe vêm juntar-se à festa outros romeiros.



