
Hoje escrevo e homenageio um grande amigo, uma das pessoas de quem mais gosto na vida. Mas, registe-se, desde logo, que esta homenagem não é de todo motivada pela amizade, mas pelo reconhecimento devido a um homem, a um artista, absolutamente excecional – António Casimiro.
Desde sempre que venho acompanhando a sua obra, mesmo sem o saber.
Uma das primeiras vezes que fui ao teatro, corria o ano de 1975, foi exatamente para assistir a um espetáculo cuja realização plástica estava a seu cargo. Tratava-se d’As Espingardas da Mãe Carrar, com encenação de João Lourenço, na saudosa e ora desaparecida Casa da Comédia, na Rua de São Francisco de Borja, ali à Lapa, na rua onde morava. Na altura, não sabia quem era o cenógrafo, mas, com o tempo, vim a descobrir quem era António Casimiro.
Conheci-o, muito mais tarde, na Escola Superior de Teatro e Cinema, ainda instalada no velho edifício do Conservatório Nacional, sendo eu o último dos assistentes e Jorge Listopad o exigentíssimo presidente da Escola. Este encenador e também pedagogo havia, em 1980, contratado António Casimiro para professor de Cenografia no curso de Realização Plástica do Espetáculo. Desde esse dia que se tornou uma referência perene a vários níveis, muito tendo aprendido com o seu convívio, porque António Casimiro é também a história das Artes do Espetáculo viva, já que esteve presente, ou melhor, participou de forma muito actuante em alguns dos seus mais importantes momentos.
Nascido no dia 26 de junho de 1934, António Casimiro é um dos mais importantes cenógrafos portugueses, tendo obra relevante em Teatro, Ópera, Dança, Cinema e Televisão, mas é muito mais do que isso: é também figurinista, pintor e até decorador, sendo ainda de referir a sua atividade como galerista, tendo chegado a ser proprietário da Galeria Época, com um grupo de amigos, qualquer deles notável, como Afonso Botelho, António Botelho ou Artur Bual.
A formação
A formação de António Casimiro na área das Artes Plásticas começou na juventude, ao ingressar na Escola de Artes Decorativas António Arroio, que concluiu, passando depois para a Escola Superior de Belas Artes de Lisboa. Lembre-se que é da geração e foi colega e muito amigo, entre outros, de René Bertholo e de João Vieira. Abandonaria o curso para ingressar numa escola muito importante, não formal, onde tantos fizeram notáveis formações práticas ao nível da gravura e do desenho, a Casa da Moeda, aqui trabalhando na área das Artes Gráficas, tendo chegado a produzir vários trabalhos na esfera do que se designa como Design Visual, nomeadamente selos de grande circulação. Voltaria às Belas Artes, mais tarde, para concluir a sua formação em Pintura e seriam muitas as suas exposições nesta área, como a que realizou em 2017 sob a epígrafe de Entre Telas na Casa da Cultura Jaime Lobo e Silva, Ericeira.

Posteriormente viriam as bolsas da Fundação Calouste Gulbenkian, em Roma, Milão e Paris. A Itália, mas à Itália moderna, voltaria para, em Florença, cursar Cenografia para Televisão.
A cenografia e figurinos
Trata-se de um dos mais importantes cenógrafos de sempre, não só de Portugal, onde poucos com ele poderão ombrear, com uma notável obra ao nível das artes performativas e da imagem em movimento, mas também alguém com muitas das criações que assinou a terem grande visibilidade internacional, como as cenografias que produziu para os Jogos sem Fronteiras, talvez o mais popular programa europeu dos anos 80 e 90. Ainda ao nível do trabalho para televisão, há a referir a sua colaboração com a TV Globo na cenografia da obra O Primo Basílio. Foi diretor de cenografia da RTP e podem ainda ser citados os seus trabalhos para Os Maias ou Tragédia da Rua das Flores ou Felizmente há Luar e mesmo, no campo da comédia, a cenografia para a série Os Trapalhões em Portugal.

Ainda para televisão, juntou a este meio o seu amor pelo Teatro, tendo feito cenários para teatro televisionado, caso das ilustrações que realizou para o programa baseado na peça de teatro de Luiz Francisco Rebello – O Mundo começou às 5 e 47.

Do trabalho para bailado refira-se, entre outras, a colaboração com o bailarino e coreógrafo Armando Jorge, de que se destaca a criação do espaço cénico para o bailado La Silphide.
Trabalhou para o Teatro Nacional de São Carlos, sendo, nomeadamente, seus os cenários das óperas Prima la musica poi le parole de Antonio Salieri, onde recria no palco a sala em que a ópera é apresentada e que serviria de modelo para outras cenografias. Cite-se ainda a realização plástica da ópera D. Duardos e Flérida, tendo ainda realizado cenários para a área da ópera fora deste teatro, mais concretamente com uma impressionante cenografia para a ópera Albert Herring, de Benjamin Britten, encenada por João Lourenço e apresentada no Teatro Aberto no ano de 2002.

No campo teatral, trabalhou com os mais notáveis encenadores portugueses, com o tantas vezes esquecido Artur Ramos, com Paulo Renato, Luís de Sttau Monteiro, Jorge Listopad, João Mota, José Peixoto, Carlos Avilez, entre vários outros.
Ainda na esfera do Teatro, não pode deixar de ser citada a longa colaboração que vem mantendo com o encenador João Lourenço, para quem assinou tantas cenografias que se tornaram referência, desde As Espingardas da Mãe Carrar na Casa da Comédia, mais recentemente, no presente milénio, na nova casa do Teatro Aberto e do mesmo dramaturgo, os cenários para O senhor Puntila e o seu criado Matti. Cite-se ainda a sua cenografia para Vermelho, onde recriou uma pintura de Mark Rothko, hoje pertença do acervo do Museu Nacional do Teatro e da Dança.

No Cinem trabalhou com inúmeros realizadores, mas não pode ser escamoteada a sua grande ligação a Manoel de Oliveira, sendo de referir, entre outros, o trabalho que fez para os filmes Francisca, Le Soulier de Satin, Benilde ou a Virgem-Mãe, Amor de Perdição. Trabalhou também com outros realizadores, como o seu particular amigo Artur Semedo, mas também os realizadores que mudaram o panorama do cinema em Portugal com o Novo Cinema Português e cite-se as colaborações com Luís Filipe Rocha em Cerromaior, Eduardo Geada n’O Banqueiro Anarquista e Antonio de Macedo n’Os Abismos da Meia-Noite.

Em 1990, foi convidado por uma das mais relevantes criadoras contemporâneas, Rebecca Horn, para cenografar o filme The Buster’s Bed Roomcom Donald Sutherland e Geraldine Chaplin, entre outros.
Em tudo o que fez houve um total profissionalismo, um perfeccionismo hoje tão raro, houve rigor, nomeadamente quando foi necessário existir realismo, mas também existiu inovação e experimentação.
A sua relevância levou-o a ser o representante de Portugal no mais importante evento mundial dedicado à cenografia, a Quadrienal de Praga.
Figurinista
Embora o seu trabalho na esfera da realização plástica do espetáculo mais conhecido seja na área da cenografia, a sua produção enquanto figurinista não é de todo despicienda e inclui um número muito significativo de trabalhos, abrangendo também várias áreas do espetáculo, sendo de destacar o cuidado que tem nas ilustrações, evidenciando cristalinamente o que pretende, o que permite ao executante compreender facilmente o projeto e concretizar o figurino.
Dos figurinos pelos quais se responsabilizou, citem-se apenas alguns, nomeadamente os projetados para o espetáculo baseado na peça de Henrik Ibsen – Um Inimigo do Povo, levada à cena em Lisboa, no Teatro Capitólio, no já remoto ano de 1972, sendo a tradução, adaptação e encenação de Luís de Sttau Monteiro.

Refiram-se ainda os figurinos que realizou para a companhia “Intervalo” Grupo de Teatro, nomeadamente para Dom Quixote de la Mancha, um espetáculo baseado na obra de António José da Silva (O Judeu) – A Vida do Grande D. Quixote de la Mancha e do Gordo Sancho Pança.


Também desenhou figurinos para o Teatro Nacional de São Carlos, como para a ópera Três Máscaras, corria o ano de 1986.

Por fim, refira-se algo mais inesperado, mas também significativo: chegou a criar figurinos para o Festival RTP da Canção, nomeadamente no ano de 1973.


O Pedagogo
Há, ainda, algo que deve ser realçado e que geralmente é esquecido, mas não pode de forma alguma ser escamoteado: o seu trabalho como pedagogo, ou seja, o seu labor como docente do curso de Cenografia, depois designado como Realização Plástica do Espetáculo na Escola Superior de Teatro e Cinema, onde foi professor convidado a partir de 1980, tendo formado várias gerações de cenógrafos, muitos dos quais de grande relevo no presente, nas áreas do cinema, teatro, dança e televisão, como Sérgio Loureiro, Mariana Sá Nogueira, Fernando Ribeiro, Marta Carreiras, Ana Paula Rocha, Luís Santos, Artur Pinheiro, Stephen Alberto, Catarina Amaro e acredite-se que neste pequeno elenco são injustamente esquecidos outros tantos nomes importantes.
A Pintura e o Desenho como escape
Também menos referida é a sua obra pictórica, com uma evidente relação com a cenografia, sendo muitas vezes um desenvolvimento do que faz para o Teatro, a sua atividade primordial, algo que tantas vezes se reflete nas suas telas, mas, por outro lado, criado de forma propositadamente distinta.

A razão pela qual se dedica ao desenho e à pintura será exatamente a mesma pela qual também Marc Chagall o fez: este pintor declarou liminarmente que havia escolhido aquela forma artística, porque ela lhe era tão necessária quanto os alimentos e que, paralelamente, parecia ser uma janela a partir da qual poderia voar para outro mundo. Neste caso, a pintura e o desenho servem, sem dúvida, de refúgio e surgem como áreas paralelas à profissão de cenógrafo, que é a principal que desenvolve, mas como uma atividade que é, ao mesmo tempo, acessória e fulcral. A sua pintura tem também que ser entendida como parte integrante da sua pesquisa plástica, uma investigação que jamais cessa, movida por uma enorme curiosidade relativamente às formas e cores. Assim, mesmo que seja possível encontrar alguns denominadores comuns relativamente ao que faz como cenógrafo, percebe-se que há, não uma dispersão, mas uma busca incessante da pureza das formas, numa pintura que apela claramente à emotividade, onde a pincelada ou o traço largo são assumidos como importante componente de expressão; com manchas de cor de grandes dimensões.

Fica a faltar referir um aspeto que todos nós que somos amigos do António Casimiro conhecemos muito bem: Paralelamente a todas as suas criações, ele cultiva o prazer pelo desenho. Aqui, a representação do corpo feminino é muito significativa, quer meramente em termos de cômputo numérico, ocupando uma percentagem muito expressiva da produção, mas sobretudo pela grande qualidade que muitas patenteiam e pela variedade de formas como este tema é tratado. A este respeito, permita-se-me uma inconfidência: na sua versatilidade, neste prazer pelo desenho, descobri o seu gabinete secreto, um corpus absolutamente notável de temática erótica, que vai ser inventariado, estudado, exposto e publicado, porque é realmente um conjunto excecional, que merece ser conhecido.

Conclusão, por enquanto…
Em tudo o que fez e faz há, na obra de António Casimiro, um total profissionalismo, um perfeccionismo hoje tão raro. Há muito rigor, nomeadamente quando é necessário existir realismo, mas também há muita inovação, há experimentação, há criação e há, sobretudo, Arte.
Digam-me, agora, se não está aqui a História das Artes do Espetáculo em Portugal?!



