PELA NOSSA RICA SAÚDE

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É um edifício novo, inaugurado há menos de 10 anos, mas não serve para nada. O Centro de Saúde não tem médicos. Os que necessitam, vão lá para pedir receitas. Não há acompanhamento clínico das maleitas, sejam elas o que forem e a gravidade que tiverem.

Assim se mata o Serviço Nacional de Saúde (SNS), cada vez mais ineficaz. Sem médicos de família não há consultas nem encaminhamento para especialidades clínicas hospitalares. Quando se fala em crise na saúde, só falam das urgências, mas o problema para os utentes é muito mais amplo e problemático.

A falta de médicos de família neutraliza o sistema montado. Sem consultas regulares, muitas doenças deixam de ser prevenidas ou diagnosticadas a tempo, o que acabará por sobrecarregar ainda mais as urgências e… e as morgues dos hospitais.

A SOLUÇÃO

Por exemplo, quando um mancebo vai para a tropa e entra na Força Aérea, se tirar um curso de piloto tem de assinar um contrato que o amarra ao Estado durante uns anos, isto para o Estado não investir sem garantias de retorno. Na saúde deveriam fazer o mesmo com alunos das faculdades de medicina públicas.

Este modelo de contrato de permanência faz sentido em setores estratégicos onde o Estado investe muito na formação, como a aviação militar e a medicina. Aplicá-lo à medicina poderia garantir que os médicos formados em universidades públicas retribuíssem o investimento ao trabalhar no SNS por um período mínimo antes de poderem optar pelo setor privado ou emigrar.

Chegados aqui, a ordem dos Médicos protestará, claro. Irão clamar pela desigualdade entre médicos formados pelo sistema público e os formados nas universidades privadas. Mas, quem quiser estudar numa escola de medicina privada vai ter de pagar alguns milhares de euros por mês, durante pelo menos 5 anos. Nas faculdades de medicina públicas, não gastam quase nada.

O que acontece hoje é que não vale. O Estado investe dezenas de milhares de euros na formação de cada médico em universidades públicas, e muitos acabam por sair para o privado ou para o estrangeiro logo após a especialização, sem retribuir ao SNS. Isso cria um ciclo vicioso em que o sistema público forma médicos, mas o setor privado (ou outros países) colhem os benefícios.

A solução é um contrato de permanência obrigatório no SNS por um período proporcional ao investimento feito na formação. Quem quisesse sair antes desse tempo teria de reembolsar o Estado pelo custo da formação, talvez com valores ajustados à capacidade financeira do profissional.

CHEGA DE CONVERSA FIADA

Precisamos de políticos corajosos, que saibam enfrentar as corporações profissionais, que tenham sentido do serviço público. O SNS está em crise e continua a perder médicos formados com dinheiro público. Se ninguém tomar uma atitude, a situação só vai piorar. As pessoas querem uma solução. Conversa mole já enjoa. Um dia a direita vem com esta proposta, quando a insatisfação com o SNS atingir um ponto crítico alguém há de pegar nesta ideia. A direita, com o seu discurso de eficiência e responsabilidade financeira, pode ser a primeira a propor algo assim, não tenhamos dúvidas.

A população, que sente na pele a falta de médicos no SNS, aceitará bem uma medida destas, desde que seja apresentada como uma forma justa de garantir que o investimento público em formação médica beneficia a sociedade e não apenas os indivíduos.

Para calar a boca aos médicos recém formados, bastará oferecer bons salários e boas condições de trabalho, com mais algum incentivo para os médicos colocados longe dos grandes centros urbanos.

Vamos ver o que vão os políticos dizer, agora, em campanha eleitoral. Este tema tem de estar no centro do debate, porque a crise do SNS já não é só um problema dos profissionais de saúde, é um problema de toda a população. Vamos ver se algum partido traz propostas concretas ou se vão continuar com as promessas vagas de “reforçar o SNS” sem dizer como.

O meu voto depende disso. Vale o que vale, mas acredito que muitas pessoas começam a pensar nesses termos e a deixar cair a clubite partidária. Se alguém apresentar uma solução séria, seja com contratos de permanência, incentivos salariais ou melhoria das condições de trabalho, pode ganhar muitos votos. Mas se vierem só com conversa fiada, o descontentamento vai continuar a crescer.

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