Mataram-me o cardo!

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Sempre alimentara a esperança de que estaria atento e não deixaria os funcionários da Câmara cortaram-me o cardo, motivo da crónica que sobre ele escrevera.

Ganhara-lhe amizade – se tal posso dizer. Era assim como um totem meu, ali encostado, do lado de fora, ao muro do meu jardim. O mal fora esse: crescera no sítio errado. Do lado de fora. Algum dos automóveis das funcionárias do hospital ficava estacionado junto, todos os dias, e isso me consolava também: se os da Câmara viessem (raramente vinham, consolava-me eu), não ousariam ir entre o carro e o muro para o cortar.

Ousaram. Cortaram-no.

Dei por ele logo de manhã. A morte ocorrera ainda manhã cedo, mal o Sol abrira. Eu bem me parecera ter ouvido aquele incomodativo zunido do grande aspirador mecânico e de algo parecido com um instrumento de corte; mas achei que, também desta vez, a praceta seria esquecida, o lixo continuaria a acumular-se junto aos muros e o meu cardo, que já começara a florir e tinha mais de um metro de altura, voltaria a ser poupado. Não foi.

Compreendo perfeitamente o funcionário. A missão dele é cortar ervas que brotem nas ruas, sejam quais forem. São ervas. É lixo. Corta-se. Indiferentemente. Mesmo que tenham um ar de sua graça. Poderia vir o responsável e repreender. Que flores são para os jardins e não para crescerem em pracetas. Que ele há vizinhos chatos, sempre a reclamar pela falta de limpeza.

Não chegou o meu cardo a mostrar-me a resplandecência de todas as suas flores. Morreram em botão. Duas delas, que já tinham as finas pétalas roxas abertas olharam, tristes, para mim.

Com todo o cuidado, peguei no cadáver e – num pedido de desculpas – depositei-o suavemente no grande saco verde de plástico, em companhia de restos do meu jardim. Um dia destes, ponho o saco cá fora e o carro do Ambiente tudo levará para o cemitério. Na esperança, tenho eu, de que das suas cinzas outro cardo lindo possa renascer!

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