Na verdade os cafés pontuaram as minhas variadas vivências e deles me recordo não tanto com saudade, essa palavra tão abusada por todos, mas com nostalgia, que me parece um sentimento mais profundo – e clássico, novamente. Poderia falar de muitos cafés de Lisboa, como o velho Martinho, junto ao Teatro Nacional, onde conheci o aviador Humberto da Cruz, que, com o mecânico Lobato, partiu da Amadora e foi até Timor, em 1934, numa avioneta, sem rádio e sem paraquedas. Ou ainda o Café Lisboa, quando situado no seu local original, sempre repleto de gente do Parque Mayer, ou nos Restauradores o Avis e um pouco mais acima o belíssimo Palladium, com um exuberante interior Art Déco e ricos painéis com referências aos produtos ultramarinos e à Mitologia grega – quem tem medo da Antiguidade Clássica? E o grande café do desaparecido Monumental, um simbólico edifício lisboeta sacrificado à pequenez de espírito a que por vezes se chama progresso? Não esqueço também o Nacional, na Rua 1º de Dezembro, com painéis de azulejo representando monumentos e paisagens das províncias portuguesas. Só me recordo do Templo de Diana, outra vez a Antiguidade! Pois foi junto a este café que, em Novembro de 1953, recebi de meu Pai o primeiro livro de História da Antiguidade, O Antigo Império Egípcio, de Vitorino de Magalhães Godinho, comprado num carro de mão estacionado à esquina do café. Que venderiam hoje?

Deixando a capital, passando o Tejo no velho Évora, fumegando como um fogão de sala entupido, rumo à capital alentejana, lembro o Café Portugal e a sua decoração parietal de pequenos azulejos com monumentos e trajes típicos, ou o Estrela dʼOuro, onde se compravam bilhetes de cinema (plateia a cinco escudos = 2,5 cêntimos, podem imaginar?). Lembro outros, mais para sul, onde guardarei sempre a nostalgia de longas férias estivais em Tavira, passeando pela brisa da tarde ali onde os sentidos pressentem o Mediterrâneo, como muito bem evocou Raul Brandão – Os nomes das estações têm um sabor a fruto maduro e exótico – Almancil, Nexe, Diogal, Marchil… De quando em quando fixo um pormenor: uma mulher passa na estrada branca, entre oliveiras pulverulentas e fantasmas esbranquiçados de árvores (Raúl Brandão, Os pescadores, Lisboa,1972: 199).
Em Faro, recordo sobretudo o Aliança, ainda sobrevivente mas alterado, com os seus painéis com fotografias antigas do Algarve, ou a Brasileira, onde conheci o Zéca Afonso e onde se podia encontrar o Prof. Furtado, que ali falaria de História, na Escola só dava o Programa, dizia. Voltando atrás, agora a Santarém, lembro as horas passadas no Café Central, no Abidis,ou antes, no tempo das minhas primeiras passagens pela também desaparecida EPC, o café na central de camionagem Ribatejana. Em Coimbra, para onde a Universidade me trouxe, não esqueço o Arcádia, onde escrevi o meu primeiro artigo académico, ou o Internacional e o Império, este perto do Distrito de Recrutamento 12, a que na altura se costumava chamar Universidade da Sofia, tal era o número de oficiais milicianos ali destacados e a terminar cursos universitários. Todos estes cafés desapareceram.

Devo recordar também os cafés de Luanda? Recordo principalmente dois deles – e aqui o sentimento é diferente, como se tivesse vivido um tempo suspenso, de um futuro vago, inquieto – o café-pastelaria Versalhes, que tinha uma bela varanda de onde se podia observar o movimento na rua, a Livraria Lello e a Cervejaria Portugália. Na Versalhes assisti a uma situação que na época, em 1966, me pareceu estranha. Não resisto a transcrever parte da entrada do meu diário angolano de dia 24 de Junho: Fui à Versalhes, onde apareceram umas “raparigas” vestidas de forma muito esquisita, com a barriga à mostra. Outros tempos e alegres trópicos! Também lembro o pequeno Café Académico, no Bairro do Café, perto da Escola Vicente Ferreira, onde minha mulher leccionou durante três anos e onde a esperei tantas vezes.

Mais a norte, na ZIN, era tudo diferente. Em Ambrizete era o bardo Hotel Solpraia, hoje incendiado e reduzido aos alicerces, onde sacudia o pó da picada quando ali chegava na habitual coluna logística ou a caminho da licença em Luanda. Onde estais, camaradas? Somos ainda os mesmos ou tornámo-nos outros? Mas no bar também se vendiam livros e foi lá que comprei A Estrada Real, de Malraux. Poderia continuar esta pequena crónica movida a café – que agora devo beber com moderação – crónica que não desejo fastidiosa, como podem ser as recordações a que procuramos dar vida, neste caso de autênticos locais de memória que não gostaríamos que tivessem desaparecido, talvez por viabilizarem a ilusão da nossa própria continuidade, como se tal coisa fosse possível. Mas devo terminar este exercício de psicogeografia, este périplo, bela palavra grega que evoca viagens e as novas estrelas, praias e gentes cantadas por Sophia (Sophia de Mello Breyner Andresen, Obra Poética, II, Lisboa, 1992: 256), voltando ao Alentejo, onde fui tão feliz quanto se pode ser neste mundo e no tempo fugaz que nos é concedido.
Estremoz, onde só não nasci por acaso, guardou até há pouco um café onde pairavam não só recordações vivas e vividas da minha infância e do tempo suspenso cheio de ameaças e maravilhas que antecedeu a minha mobilização pelo RC 3, a caminho de Angola, dividido entre o desejo de ficar, porque em Estremoz encontrei a minha noiva, e a necessidade de obedecer, por questões de disciplina pessoal. Esse café era o Águias dʼOuro, bem situado no Rossio, estabelecido num belo edifício de arquitectura ecléctica, combinando Arte Deco e Modernismo, de forte identidade e história curiosa.

Sempre que voltava a Estremoz, de comboio ou de camioneta, descia a Avenida Condessa de Cuba, atravessava a grande praça e uma das primeiras paragens era no Águias, que encontrava praticamente idêntico a si próprio. Lá estavam a sua imponente heráldica, imperial e concelhia, e o mapa mural do Alto Alentejo, embora a frequência fosse cada vez menor, esbatidas as diferenças sociais que faziam dele, outrora, o café das elites locais, oficiais no Águias, sargentos no Alentejano, que lá continua. Como é natural, lembro-me especialmente das horas ali passadas com a jovem senhora que seria minha mulher no ano seguinte, vindo de licença para logo de seguida mergulhar numa operação de intervenção, a Operação Quissonde, nos Dembos, deixando-a em Luanda.
O meu noivado resultou, direi, de uma questão linguística – eu queria estudar alemão durante os meses menos ocupados até à formação da unidade mobilizada – e assim a encontrei na Escola Industrial e Comercial, onde me disseram haver alguém que me poderia dar explicações. Não foi bem assim, mas o encontro foi uma aparição e o café passou a ser um dos locais privilegiados da nossa convivência, terminado o período diário de permanência no quartel e as aulas do horário nocturno. Quantas horas ali passaram, a bebericar groselha sob a águia imperial, por vezes acompanhados por uma amiga comum, figura conhecida da cultura estremocense de então, poetisa de grande sensibilidade e que tão bem nos compreendeu, pois neste café acabaram as solidões. Era Verão, o futuro uma incógnita, mas que interesse tinha isso se eramos novos e sentíamos ainda, com prazer, o sol na face e o vento nos cabelos? E todos estavam vivos.
Ora soube há dias, através da notícia publicada num jornal local, que o café se encontrava encerrado sine die, aparentemente devido a problemas de estabilidade do edifício. Foi um choque, porque naquele momento me retiraram uma baliza que considerei permanente, uma das poucas ilusões de continuidade que ainda sobreviviam, como no mar se perde a luz de um farol. Exagero? Talvez. Até onde me levará ainda esta navegação? De momento vou acabar estas duas linhas sentidas e tomar um café. Wo sind nun Rosen? Wo die Schwäne?



