Hoje, restaurante são-brasense que se preza apresenta-nos, em jeito de aperitivo, o pratinho de rodelas de cenourinha cozida temperada e azeitonas também com seu alhinho picado, orégãos, colorau, azeite e vinagre, uma folhinha de louro e, por vezes, até um raminho de hortelã.
Confesso que não hesitei em usar os diminutivos, que são muito nossos, nada piegas e sempre a ressumarem o carinho com que são preparados. E se a moda da cenourinha às rodelas ainda não pegou por esse País fora, as zeitonas temperadas já fazem parte integrante da ementa dos aperitivos de muitos restaurantes mesmo fora do reino do Algarve.

Aprendi com meu pai a curar a azeitona, que, aqui na zona cascalense, íamos apanhar à de um compadre meu, cujas oliveiras davam bem para azeitona de conserva. E, por isso, cedo aprendi a importância da água da chuva, das folhas de louro, da nêveda, dos orégãos, dos punhados de sal grosso, dos alhos inteiros pisados… E a não dispensar azeitonas à mesa e a apreciá-las todas: as verdes inteiras, as verdes arretalhadas, as verdes britadas (e a experiência que é preciso ter para lhes tirar o acre natural!), as pretas (escaldadas, murchas ou não…), as de salmoura…
Admiram-se os meus amigos estrangeiros por o fruto da oliveira não se chamar algo como ‘oliva’, tal qual se diz, por exemplo, em espanhol, em italiano ou em francês, línguas itálicas. É que a palavra portuguesa ‘azeitona’ vem, como se sabe, do árabe –que ali se pronunciará algo como zitun e nós, amiúde, no falar quotidiano, até lhe comemos por isso o a inicial. Mais um exemplo da forte influência que recebemos da comunidade árabe que durante mui largas décadas aqui lançou raízes!
– Então, vai uma zeitoninha, amigo? Com um copito de branco ou tinto ou uma cervejinha sai mesmo a matar!…




Que apetitoso o texto sobre o tema azeitonas, José d’Encarnação!
Um dia vi uma pequenina entrevista a Maria de Lurdes Modesto, natural de Beja, e a uma das perguntas “se tivesse de escolher a última refeição, qual seria…”, ela respondeu: “diria uma fatia de pão rústico e um punhado de azeitonas”.
Lembrei-me logo de quando era criança e trocava o meu “bico” = papo seco, pelo pão escuiro da minha Amiga Judite e pelo montinho de azeitonas que ela trazia embrulhadas num guardanapo de pano.
A professora sabia, não reprovava. A minha mãe sabia, conhecia a mãe-pai da Judite, “viúva”, como tantas, de maridos vivos que as deixavam temporariamente, ou para sempre.
Só de ouvir falar em punhado, já sou remetida àquele tempo e às azeitonas pretas que a minha amiga tirava de um cântaro de barro. Um dia fiz questão de ir ver…
Ela todos os dias comia um lanche diferente. Eu todos os dias o mesmo, e sabia-me a manjar de anjos. Só acho que não deviam ter caroços, para se comerem mais em menor tempo.
E já agora, se um dia quiserem ir apanhar à Beira Baixa um cestinho daquelas gordas, suculentas, para curar, é só combinarmos. Digamos que não sendo de lá, tenho na família quem seja.
E depois de terem encerrado o lagar, é doloroso ver como aqueles frutos da oliveira, de superior qualidade, apodrecem na terra, ou são devorados por animais que sabem o que é bom…
E agora, que não tenho azeitonas em casa?