Jeferson Tenório, escritor brasileiro do Rio de Janeiro, escreveu esta delícia de livro que eu devorei numa viagem entre Luanda e a Cidade do Cabo só para confirmar que a escrita é uma poderosa forma de confissão. São apenas 181 páginas de uma escrita simples mas intensa, onde uma menina negra de nome Estela nos apresenta o seu mundo (a avó, a mãe, o irmão), a realidade da sua pobreza e, particularmente, a sua relação com Deus.
A jovem Estela aprendeu desde cedo com a sua “vó Delfina” tudo o que havia a saber de importante sobre a perda. Desde cedo se habituou que a vida chega sempre a galope. Depois, com a mãe, aprendeu o que é a dignidade na pobreza, em importantes lições que a deixavam convencida de que alguns sonhos eram mesmo mais honestos do que a vida.
Uma vida quase reduzida a Estela, à sua mãe e a um irmão. Havia também um pai – habitualmente ausente como tantos pais – e sobretudo à beira do abismo, desesperadamente a segurar a mão de Estela para ele próprio não cair. Deveria haver mesmo uma lei que impedisse os pais de chorar à frente dos filhos, confessa-nos… A mesma Estela que afirma sentir um profundo silêncio dentro de si embora a sua mente voe para longe, porque pensar era a única coisa que a salvava.
Um livro sobre mulheres que choram sempre devagar como se tivessem de economizar a sua tristeza. Um romance sobre gente que nunca parou a vida por causa do pranto, o que é uma forma de milagre. Mulheres que aprenderam desde cedo a administrar a má sorte e o desalento. E talvez a felicidade seja só isso: saber administrar a tristeza.
Quando pensa ter descoberto o amor, Estela rapidamente percebeu que o Isaías era uma mosca-morta e, obviamente, a Estela, que inventava várias casas dentro da sua cabeça, seria impossível gostar de moscas-mortas. Na igreja, quando o pastor afirma que os homens são violentos porque são habituados a lidar com guerras e que as mulheres têm a obrigação de os acalmar, Estela não resiste a afirmar que Deus não tem memória e que muitas vezes se esquece das mulheres. Por isso, vai à igreja para lhe lembrar que as mulheres existem.
Do início ao fim, Estela interroga-se onde estará Deus… Mas, sabemo-lo, Deus não gosta de perguntas.
“Então, eu fechei os olhos e chamei por Deus. Mas Deus não veio.”
Para Estela, o mundo é muito maior que Deus.



