VAMOS LÁ PÔR ORDEM NISTO!

Ou pela força das armas ou pela da negociação, sempre o Homem, isolado ou em comunidade, fez questão de ter o seu território. Por razões de subsistência ou por ânsia de poder, houve, pois, necessidade de «pôr ordem nisto», daqui para ali é teu, para o lado de cá tu não mexes!

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1923

Uma das inscrições mais curiosas da Lusitânia romana foi inserida em arco triunfal a meio da ponte de Alcântara sobre o rio Tejo. Aí se conta que, para erguerem obra tão imponente, levada a efeito no tempo do imperador Trajano, concretamente no ano 105, o melhor era  unirem-se todos os povos a que a ponte iria facilitar a vida. E uniram-se, conforme reza o escrito:

«Municípios da província da Lusitânia que, mediante subscrição, levaram a cabo a conclusão desta ponte: os Igeditanos, os Lancienses Opidanos, os Taloros, os Interanienses, os Colarnos, os Lancienses Transcudanos, os Áravos, os Meidubrigenses, os Arabrigenses, os Banienses, os Pésures».

A placa original as intempéries a foram desgastando e, por isso, o rei espanhol Carlos V houve por bem mandar fazer uma cópia, em 1543, dada a sua extraordinária importância história, e é essa a cópia que lá está.

Escusado será dizer que tão rico manancial informativo não passou, desde cedo, despercebido aos estudiosos das antiguidades e, por conseguinte, de imediato se pôs a questão: se todos estes povos, aí existentes antes da chegada dos Romanos, beneficiavam com a construção da ponte, é porque os seus territórios estavam por i! Mas… onde? Não foram enumerados por ordem alfabética; portanto, só poderia ter sido por ordem geográfica. Do mais próximo para o mais afastado ou vice-versa?

Compreende-se que, de seguida, a preocupação foi de descobrir, no terreno ou em eventuais fontes escritas, pistas que levassem a propor localizações.

Nas inscrições surgia, aqui e ali, alguém que se identificava como «colarno» ou como «igeditano». Essa informação, porém, se confirmava a existência desse povo, não servia, porque, tal como hoje, numa localidade, o vizinho conhecido por «alentejano» é precisamente aquele que não é dali, mas sim do Alentejo; também o epitáfio dum colarno o mais natural é que documente que os colarnos… não eram dali!

Como se há-de descobrir, então, onde se situavam essas etnias cuja autonomia os Romanos fizeram questão de respeitar? Como é que se sabe hoje? Com marcos! E não fazem questão as freguesias de bem delimitarem os seus territórios, por vezes não sem que haja boa polémica por detrás? Assim é. Assim foi no tempo dos Romanos.

Costuma dizer-se que quem porfia sempre alcança: José Carlos Santos porfiou e, nos últimos anos, além de outros achados aqui noticiados, houve ocasião de aqui se darem a conhecer marcos desses, recém-descobertos dois, mormente devido a essa sua incansável investigação, por montes e vales. Recorde-se um dos mais ricos em informação, achado em Gadanha (freguesia de S. Cosmado do concelho de Armamar), infelizmente não na sua implantação original, o qual, por intervenção do imperador romano Cláudio, demarcou, no ano 43 da nossa era, os territórios dos Arabrigenses e dos Colarnos. Outro, de que não temos a indicação dos povos, apenas a menção do imperador Cláudio, está num casebre, a servir de lintel num pardieiro em Arícera, também do concelho de Armamar.

E como não há duas sem três – diz o Povo – quando, há dias, foi ter com Joaquim Marques, na vila de Moimenta da Beira, para saber de uma estela discoide medieval de cuja existência tivera informação, José Carlos Santos viu uma pedra com letras em frente ao prédio. E qual não foi o seu espanto quando leu RABRIC, naturalmente parte da palavra ARABRICENSES, povo bem conhecido já.

A face do marco de Gadanha, onde aparece o início do nome Arabricenses

Ou seja: o imperador romano Cláudio não esteve com meias medidas e quis mesmo pôr ordem nisto! Ou será que esses povos eram mesmo belicosos, quezilentos e o melhor era mesmo delimitar-lhes com rigor o território, para não lhes dar na veneta de irem invadir o dos vizinhos?

O estudo epigráfico do monumento vai ser publicado em breve.

8 COMENTÁRIOS

  1. Sempre as pedras a lembrarem o passado como ecos de uma voz longínqua.
    Fui logo atraída para este texto (textos) de José d’Encarnação, tão bem delineado para fazermos a ligação com outras publicações anteriores.
    Já ele nos tinha mostrado, e agora vem fazê-lo uma vez mais, que os romanos não brincavam quando se tratava de colocar ordem na territorialidade, neste particular em relação ao povos que habitavam a Lusitânia romana.
    Fui logo atraída pela imagem porque conheço muito bem essa ponte na província de Cáceres, colosso da engenharia civil levada a efeito por Caio Júlio Lacer, arquitecto daquela época romana, conforme indicação na entrada sul. E claro que tão curiosa, fui saber um bocadinho mais e registei.
    Homenagem a Trajano, com os impostos dos “munícipes” de então e com a utilidade de a ponte (al cântara) pretender ligar Norba Caesarina a Conímbriga, outro território tão perto de Aeminium, que me diz tanto.
    Os meus registos podem ter falhas (incompletos serão) mas estou sempre apta a novas aprendizagens.
    Um abraço.

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