AFINAL, QUEM MATOU QUEM?

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Documentos e testemunhos obtidos pelo jornal israelita Haaretz revelam que as chefias militares deram ordem de “matar sem olhar a quem” a fim de evitar que civis e, principalmente, militares israelitas fossem capturados vivos e tomados como reféns.

Foi acionado o chamado “Código Hannibal”, programado para evitar a tomada de reféns que, invariavelmente, se transformam em casos políticos de difícil solução e de grande melindre social. O Estado israelita prefere matar os seus próprios cidadãos a deixar que eles sejam levados e usados como moeda de troca.

Segundo o Haaretz, o “código Hannibal” foi acionado logo às primeiras horas do dia 7 de outubro. Num primeiro momento, os comandos militares e políticos israelitas ficaram paralizados pelo espanto, seguiram-se momentos de caos e, depois, o código foi acionado.

Imagens do dia 7 de outubro de 2023

O Haaretz teve acesso a várias mensagens militares, uma delas, das 11h22 do dia 7 de outubro, com a ordem “Nem um único veículo pode regressar a Gaza”. Essa ordem selou o destino de sequestrradores e sequestrados que ainda estavam fora da Faixa de Gaza.

Documentos obtidos pelo Haaretz, bem como testemunhos de soldados e oficiais de diferentes patentes das Forças de Defesa de Israel (FDI), revelam uma série de ordens e procedimentos estabelecidos pela Divisão de Gaza, pelo Comando Sul e pelo Estado-Maior das FDI, ter sido este procedimento generalizado, desde as primeiras horas após o ataque e em vários pontos ao longo da fronteira.

O Haaretz não sabe quantos civis e soldados israelitas foram atingidos devido a estes procedimentos, mas os dados acumulados indicam que muitas das pessoas raptadas estavam em risco, expostas a tiros israelitas, mesmo que não fossem o alvo.

O Haaretz diz não saber, ainda, se a ordem de acionar o “Código Hannibal” foi decidida pelas chefias militares ou pelas políticas. Uma fonte militar disse ao jornal que a verdade talvez venha a ser revelada se e quando houver uma investigação posterior ao conflito.

Uma troca de mensagens militares mostrada aos jornalistas do Haaretz revela bem como as ordens foram dadas e cumpridas. Às 7h18 do dia 7, quando um posto de observação no posto avançado de Yiftah informou que alguém havia sido sequestrado no posto fronteiriço de Erez, recebeu a seguinte ordem: “Hannibal em Erez”.  Seguida da seguinte instrução: “enviar um Zik”. O Zik é um drone de assalto não tripulado, e o significado desta ordem era claro. Matar todos.

O posto fronteiriço de Erez não foi o único local onde isso aconteceu. Informações obtidas pelo Haaretz e confirmadas pelo exército mostram que, durante toda aquela manhã, o mesmo procedimento foi acionado em dois outros locais atacados pelo Hamas: a base do exército de Re’im, onde se localizava o quartel-general da divisão, e o posto avançado de Nahal Oz, onde estavam mulheres militares. Isso não impediu o sequestro de sete mulheres militares nem a morte de 43 soldados homens e mulheres. Mas quem os matou, realmente, ainda é uma pergunta sem resposta.

Imagens do dia 7 de outubro de 2023

Durante todo o dia 7 de outubro, os militares israelitas perseguiram e tentaram atingir por todos os meios os veículos e pessoas que estavam a regressar à Faixa de Gaza. O jornal relata discussões entre as chefias do exército, uma vez que os militares não tinham uma imagem completa do que estava a acontecer na região, embora soubessem que havia civis e militares israelitas em fuga, alguns em áreas abertas, outros escondidos em bosques ao longo da linha de fronteira com a Faixa de Gaza, pessoas que procuravam evitar ser apanhadas pelos guerrilheiros do Hamas. Bombardear o território também os colocaria em perigo.

Outra ordem dada às 11h22, segundo a qual nenhum veículo seria autorizado a regressar a Gaza, foi mais longe. “Toda a gente já sabia que esses veículos podiam transportar civis ou soldados raptados”, disse uma fonte do Comando Sul ao Haaretz. “Não houve nenhum caso em que um veículo que transportava pessoas raptadas tenha sido atacado conscientemente, mas não era possível saber quem estava nesses veículos. Todos sabiam o que significava não deixar nenhum veículo voltar a Gaza.”

Um caso em que se sabe que civis foram atingidos, porque foi impossível evitar a cobertura jornalística, ocorreu na casa de Pessi Cohen no Kibutz Be’eri, onde 14 reféns foram mantidos na casa enquanto as FDI atacavam o local, No final, 13 dos 14 reféns estavam mortos. As FDI dizem estar a investigar internamente o sucedido e prometem um relatório sobre os resultados da investigação.

Israel decidiu invadir a Faixa de Gaza, com a alegação de que o Hamas matou pelo menos 1.200 israelitas e feriu mais de 3.300 em 7 de outubro. Mas, na verdade, parte dessas vítimas podem ter sido provocadas pelo próprio exército de Israel.

Em Gaza, o Ministério da Saúde palestiniano informa que pelo menos 38.153 palestinianos foram mortos, entretanto, nas ações de vingança de Israel. O Hamas e a Jihad Islâmica Palestiniana mantêm reféns pelo menos 120 soldados e civis, mortos ou vivos.

O Governo israelita optou pela via militar. Os familiares dos reféns mobilizaram parte da sociedade em protestos com os quais pretendem obrigar Netanyahu a negociar com o Hamas a libertação dos reféns. Já passaram quase 10 meses e muitos dos reféns morreram já, vítimas dos bombardeamentos de Israel na Faixa de Gaza.

Esta guerra começou em plena crise política e social em Israel, com o primeiro-ministro Netanyahu a ser fortemente contestado devido à legislação promovida pelo governo com o objetivo de salvar Netanyahu dos três julgamentos de corrupção que enfrenta.

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