AMARGO E DOCE

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Há tantos anos que quase apetece escrever, era uma vez, seguia umas séries da BBC que eram fantásticas. Umas históricas, outras ficcionadas, deixavam sempre resíduos de ensinamentos úteis para o resto da vida. Uma delas tinha um título pouco sugestivo: Upstairs, Downstairs, que traduzido à letra para Português ficaria ainda pior: Escada Acima, Escada Abaixo. Daí que em Portugal a baptizassem de A Família Bellamy.

Recebiam muitas visitas para jantares requintados, claro, até um dos herdeiros da rainha Vitória já a chegar à meia-idade. Sem ter outra ocupação que não fosse namorar e degustar lautos banquetes, o herdeiro sem trono aceitava o convite dos Bellamy, sempre a fazerem por se manter na crista da onda das relações sociais. Curiosamente os elementos da família tinham um protagonismo secundário.

As figuras principais de toda a série faziam parte da legião de servidores da casa, com o “quartel-general” no rés-do-chão da mansão vitoriana e dormitórios no sótão. A estratificação social era bem caracterizada nas conversas do mordomo, ou da governanta, com os senhores da casa: muitas vezes excelência, vénias de cabeça baixa, mãos atrás das costas, ele, as dela cruzadas à frente numa actividade nervosa. Depois cada um descia as escadas e assumia o lugar de topo na hierarquia de serviçais, determinando tarefas com arrogância e a voz bem colocada.

O jantar do príncipe, tão próximo do Natal, era um acontecimento. Antes de tudo era preciso planear a refeição, depois organizá-la de forma a encadear cada fase com sucesso. E a governanta levava horas a pensar no cardápio, sempre sob o olhar atento do mordomo, Mr. Hudson que, polindo exaustivamente os sapatos do amo, ia dando palpites. Um deles eliminava as angústias da governanta e da cozinheira em três tempos: “Sua Excelência diz que as coisas simples são as melhores, desde que sejam frescas e de excelente qualidade”. “Frescura e qualidade”, repetia a governanta num tom adocicado, olhando o tecto. “Já sei: rodovalho cozido ao vapor com legumes salteados e para sobremesa, peras cozidas com especiarias”. Olhava a cozinheira, ainda incrédula. Até lhe parecia mentira uma refeição tão simples para servir a um príncipe.

Depois as ordens, as recomendações especiais, a correria dos subalternos como abelhas na colmeia, para fazerem as listas e os recados. “Só os melhores ingredientes…até o tamanho das peras conta.”. Os fornecedores habituais fariam chegar o resto à mansão pela porta das traseiras, ao nível daquele piso mais baixo.

Fazia-se o jantar. Vinha o convidado com um séquito considerável. O mordomo servia os vinhos. As empregadas subiam e desciam as escadas para levar os amuse-bouche. Depois aparecia o prato principal. Sua quase Alteza metia uma garfada à boca, aprovava, sorria. As almas dos Bellamy, até aí em suspenso, descansavam, retribuindo o sorriso em dobro. A criada que o servira, por sinal muito engraçada, dava um imperceptível suspiro de alívio antes de descer e contar as novidades lá em baixo. Uma excitação.

Enquanto outra ia saber se era preciso servir mais, tratava-se da sobremesa. O aroma do molho a engrossar, já subia pelas escadas até às narinas dos ilustres. Nessa altura, invocando necessidades fisiológicas urgentes, sua Excelência levantava-se e saía da sala, mas em vez de entrar no WC, acendia o charuto pelo caminho atapetado e descia as escadas sem barulho. Meio escondido num vão da copa, espiava a empregada bonita, ocupada na cozinha a colocar as peras na travessa de prata. Por segundos que lhe pareciam a ela uma eternidade, havia uma troca de olhares, languidez…Depois ele desaparecia deixando atrás de si espirais de fumo aromático. A serviçal que levaria outra travessa notava, também ficava alterada. A governanta, de costas, consolava-se com a espessura do molho, de cabeça para trás e narinas dilatadas, mas dava por um aroma diferente que não vinha da panela…

As moças ajeitavam as toucas, pegavam nas travessas, ouviam as recomendações. Cada uma de seu lado da mesa precipitava-se para a porta ao mesmo tempo e o desastre acontecia…chocavam. Peras e molho derramados pelo chão, as batas brancas salpicados de amarelo-açafrão… Momentos de profundo silêncio e pesar, depois discussão acesa entre ambas, acusações mútuas de culpas, ameaça de tempestade. E agora? A governanta dava um berro: “Agora chega. Mandei cozer uma boa porção de peras para acautelar casos destes…”.

E enquanto o exército de escravos limpava e as fardas eram trocadas, preparavam novas travessas que logo eram levadas escada acima. À saída o príncipe, excelência, duque de alguma coisa, ou quase alteza, exigia a presença de todos, mas só tinha olhos para a empregada bonita. “Foi o melhor jantar que provei até hoje”. E despedia-se.

Esgotada, a tripulação descia e sentava-se nas cadeiras à volta da longa mesa de refeições, no porão daquele barco. A governanta, com a mão no braço do mordomo, agradecia. “O que valeu foi planear, organizar e descomplicar, Mr. Hudson. Coisas simples podem fazer a melhor das refeições, sua Alteza tem razão”.

Retirei estes ensinamentos para os momentos especiais da vida, até para o Natal. Repliquei muitas vezes este prato com o rodovalho, outras substituído por uma simples dourada. O êxito das peras bêbadas, afinal a delícia de sobremesa que deleitara sua quase Alteza, depende dos ingredientes do molho. Truques de cada um… Mas para um Natal ainda mais apetitoso, não se pode esquecer uma pitada de alegria.

5 comments

  1. Excelente estreia, caríssima Helena! Bem diz o nosso amigo Carlos Narciso, «Temos cronista!». Concordo inteiramente com ele. Acabámos de ler e já nos perguntamos «Quando será a próxima?». Venha ela, para nos deliciar e tanto nos instruir. Parabéns! Bem-vinda!

  2. “Downstairs”, ou a estranha naturalidade com que as pessoas se acomodavam a servir, como se pertencessem a uma casta inferior. “Upstairs”, ou a talvez menos estranha naturalidade com que as pessoas aceitavam ser servidas, como se o merecessem. Nada que infelizmente não faça parte deste estranho aglomerado de vícios e virtudes, que é o ser humano.
    Mas, sim, tenho saudades dessa magnífica série de televisão, de que “Downton Abbey” terá sido, na minha opinião, uma digna sucessora.
    Obrigado, Helena, pela evocação.

  3. Memórias de uma série que reunia famílias frente à televisão descritas de forma excelente e atractiva.
    Um bom aperitivo para crônicas futuras.

  4. Um belíssimo texto sobre uma série que marcou o nosso imaginário televisivo. Escrito na clareza de quem sabe ver de forma aquilatada e ao jeito do “british humor”. Já não recordava certas personagens que, pela sequência da à hierarquia funcional, como as descreve, emergiram rapidamente na minha à mente de forma tão clara. É com agradável sorpresa que tomó conhecimento deste seu notável labor de cronista, mas nunca é tarde para descobrir, bem haja.

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