TU

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“Há dias um amigo do coração disse que era bonito nestas crónicas o relato das minhas experiências e sentimentos mas talvez eu expusesse em demasia a minha intimidade”. Assim começava a próxima crónica. Achei graça, escrevi uma série de coisas intimas mas como sendo mentiras, infâmias, nunca eu faria tais coisas. Achei-me muito piada, o texto era recheado de humor. Eu, escritora fantástica!

Já estava em fase de revisão quando o amigo Google me deu a notícias e fez a gentileza de passar por cá. Aspirei e lavei o chão todo, tratei da loiça, passei várias toalhitas pelos móveis, acendi incenso, tomei banho. Estava apresentável e composta.

Falámos sem pressas. Sabendo do que falávamos não sabíamos nada. Ele partiu, saí à rua e enviei duas mensagens a amigos meus que se tornaram teus. Ela ofereceu-se para me acompanhar na despedida, ele deu-me todo o consolo que tinha para dar.

Estava muito bem disposta, o vinho branco à pressão que fui buscar ajudou. Ainda não cheguei a este hoje. Estou no telefonema de ontem à noite em que, com uma voz grogue, te queixaste que só deverias sair na 2ªfeira. Brinquei com a tua voz: “Aí as drogas são mesmo boas!”. Despedimo-nos com um até amanhã.

Ainda não larguei o ontem, ainda não realizei que estou no mundo sem ti. Recuso-me a chorar até não poder mais. Estou até bem disposta, enquanto puder permaneço em negação.

E agora? Como vou viver aqui, onde tu não estás cá para me amparares, tomares conta de mim, me permitires ser quem sou e ainda o que possa ser? Com quem é que vou discutir como se de um marido tratasse, a quem é que vou dizer que a tua casa é um caos e  não deixas entrar o sol? A quem é que faço o ultimato: ou bem que olhas para mim, ou bem que se olhas para a televisão e para o móvel vou-me embora? E é já! Em que braço vou chorar quando o mundo me engole? Para quem é que vou cozinhar agora?

Sim, sei bem, estou só a falar de mim, das minhas vontades e necessidades, ponho-me poucas vezes no teu lugar. Mas lembro-te sempre que és muito maior do que aquilo que pensas, para mim e para este país, és um herói, um combatente acérrimo da democracia, um avô babado, um ser humano extraordinário.

Podia escrever muita, muita, muita, coisa mais sobre ti, sobre mim, sobre nós.

Mas tens razão, a intimidade é para guardar, não para escancarar nestes rabiscos. Fica só entre nós e nós juntos somos bestiais. Somos família. Tu é as minha família, não parte dela.

Vou passar todas as fases que tenho de passar até chegar à que interessa: a saudade. Já disse e repito que não é um sentimento triste, é sentir na pele o amor que os outros, que tu, plantaste em mim. Vou usá-la para fazer tudo o que disse que queria fazer e nunca fiz. Agora não me deixas alternativa.

Passo todas as fases, uma por uma, até chegar ao pé de ti, tu que nunca saíste de ao pé de mim.

Amo-te Mário.

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