Anjo da guarda

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Na despedida, pedi-lhe para ser o meu anjo da guarda, egoísta como sou, pedi uma tarefa tão grande. O anjo da guarda anterior não teve férias desde que nasci. Acabou por cair. Puxei por ele  ao limite.

Quando ouvi a frase, rebentou-me na cara, no corpo todo, uma onda gigante de choro. A dor sente-se na mesma proporção que o amor. A dor ocupa fisicamente tudo em nós. E não, não se torna mais fácil quando se sabe de antemão que, mais dia menos dia, se vai ouvir: o padrinho morreu.

Levantei-me das escadas da basílica, já estava inteira quando ali cheguei, tinha de estar. Respirei fundo, fiz o telefonema. A irmã disse que o velório era só no sábado. Senti um misto de vergonha, confusão, de ridículo. Estávamos numa quinta-feira. Continuei a fumar nas escadas, a olhar em frente, o jardim convidou-me.

Foi com ele que lá entrei pela primeira vez. Sempre gostei da profundidade do verde, dos espaços diferentes em harmonia, o nome tão bonito: Jardim da Estrela. Escolhi uma porta lateral, quis evitar o nosso banco preferido.

Nunca faltou a um aniversário, trazia sempre prendas maravilhosas e originais. Uma vez deu-me uma máquina de projecção de mão onde podia ver filmes de desenhos animados. Muito à frente!  Ficava para jantar. Por muito que  tivesse divertido com os amigos, esta era a melhor parte. Ficava sentada a seu lado que nem uma princesa. Tinha uma voz tranquila e uma cultura geral imensa. Às vezes fazia pequenas pausas para ver se o estávamos a acompanhar. Sim, acabávamos todos por o entender, misturava sabedoria com genuína humildade.

Quando deixei de festejar os aniversários em casa, nunca se esqueceu de ligar, por vezes íamos almoçar e, com um ar sorrateiro, dava-me umas notitas. Sabia que já não queria brinquedos, era adolescente.

Fui muitas vezes de férias para a roulote na Costa da Caparica. Convidaram-no a ficar no parque sem qualquer encargo, era sempre bom ter um médico por perto.

Mas, cada vez que alguém o procurava, era comigo com quem se deparava. Tinha sido chamado para uma emergência no hospital, tinha havido um acidente aparatoso, estava num colóquio da especialidade… Confesso que me divertia a inventar justificações. Ele aparecia de manhã para ver se estava tudo bem. Curiosamente, nessas alturas era raro surgir alguém à procura dele e ficava com ele só para mim.

Foi na fase adulta que começaram as conversas íntimas. Trocávamos segredos, riamos, falávamos de tudo, trocávamos mais segredos. Era um deleite. Conheci o homem debaixo do fato do sr dr. Teve uma vida mais dura do que a do cirurgião. Por causa da vida dos outros abdicou da sua. Tornámo-nos amigos.

Anos e anos mais tarde, nas visitas à sua casa, recordava-o uma e outra vez quem ele era para mim. Sem tristeza. Gostava de lhe dizer quem eu era, muitas vezes, não me cansava. Ria-me quando topava que ele fingia que sim, mas não se lembrava de nada. Eu fingia que não percebia e repetia tudo de novo. 

Há 49 anos o meu pai teve um acidente grave e foi ele o cirurgião que o operou. Na altura a minha mãe estava grávida. Acompanhou-a ao longo da gravidez, seguiu a longa recuperação do meu pai.

Foi o meu tio mais velho quem trouxe a minha mãe para Lisboa e a colocou a trabalhar no seu café. Foi aí que conheceu o meu pai, apaixonaram-se, deram-me vida. O meu tio ficou chocado com a coisa, que vergonha! Despediu-a, levou a coisa muito peito, como se fosse um mal dele.  É que ele era o Godfather.

Mesmo assim, a minha mãe convidou-o a ser meu padrinho e levou com um redundante não. O meu pai  pediu então ao médico cirurgião. Aceitou na hora, cumpriu o seu papel ao pormenor, cheio de amor, desde o primeiro ao último dia. A meus olhos foi um ser humano perfeito, o melhor padrinho do mundo, o meu anjo da guarda. Apanhei o 28 para casa.

Vou voltar ao jardim. Sento-me no nosso banco preferido e digo, uma e outra vez, quem ele é para mim.

arquivo pessoal de Sónia Andrade

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