Crónica da Primeira Dose da Vacina

0
306

Num domingo de manhã em pleno Julho abafado e ao mesmo tempo nublado, o despertador faz lembrar que é hora de nos pormos ao caminho para ir apanhar a primeira dose da vacina contra o coronavírus. A mesma já estava marcada há várias semanas, depois de meses de espera e algumas dúvidas de saúde (entretanto esclarecidas com o médico de família). Após estudar o horário dos autocarros da Vimeca, quinze minutos de espera na paragem bastaram para (re) confirmar o que já muitos se queixam: que no Oeiras Valley, os carros continuam a ser quem mais ordena (mesmo com o trono a ser disputado pelas ciclovias, nos últimos tempos) e que quem depende de transportes públicos é tratado à parte, quase como uma minoria incómoda; digo isto porque a oferta de autocarros em circulação, Combus incluídos, bem poderia ser melhor. É pouco conveniente, para a vida diária, ser-se forçado (a) a esperar entre quinze a quarenta e cinco minutos entre autocarros, mesmo que o trânsito até esteja fluido. E a solução popular (“vê lá se compras um carro”) é uma armadilha. Várias cidades já experienciam os péssimos efeitos de terem tantos automóveis como população.

Uma vez resignada com a opção do táxi (que é gratuita, isto é, paga pela autarquia, bastando à pessoa apresentar o Cartão de Cidadão), chego antes da hora ao Pavilhão Carlos Queirós, no Bairro da Outorela. À entrada do mesmo, estão a postos cadeiras de rodas para ajudar quem tem mobilidade reduzida; aliás, todo o espaço está preparado para pessoas com essas necessidades, o que é de louvar. O temor das filas de grande dimensão, que chegaram a ser mostradas nos telejornais, desta vez não se cumpriu: bastou encontrar o caminho certo para as pessoas com marcação e em menos de dez minutos, com a ajuda de afáveis voluntários, estava sentada a preencher um questionário detalhado e obrigatório. Sempre que um utente se levantava, um dos membros da equipa, com máscara FFP2, luvas e bata, procedia à desinfecção das cadeiras, dispostas em rigoroso alinhamento e distanciamento social.

Após o questionário ser revisto pela equipa de um balcão onde se recolhem os dados, é a vez de esperar para sermos chamados a uma das 14 salas de vacinação. Tudo está organizado para funcionar como um bem afinado relógio. Fruto da boa vontade dos admiráveis voluntários e enfermeiros, dirão alguns, graças à organização militar que foi dada à campanha nacional de vacinação contra esta doença, dirão outros. Seja como for, de acordo com o Jornal de Negócios, só no passado dia 8 de Julho foram vacinadas 158 mil pessoas contra a COVID-19, e em 4 dias, mais de 600 mil pessoas tinham sido vacinadas. Podemos não ser campeões da Europa em futebol este ano, mas estamos mais perto do que nunca da “taça” no que respeita à campanha de vacinação contra este bicho que nos veio alterar a vida.

Antes da hora prevista no SMS recebido, e após uma breve explicação dada por uma enfermeira, já está: quase sem dor, a primeira dose da vacina, a da Pfizer. Logo a seguir, e enquanto outro funcionário desinfecta a cadeira onde nos sentámos, trinta minutos de espera obrigatórios numa sala de recobro, não vão os efeitos secundários tecê-las; em volta, ventoinhas gigantes fazem circular o ar (num calor como o deste Verão, é sempre simpático) e vários ecrans de plasma espalhados pelo recinto mostram reportagens institucionais acerca da gestão autárquica do concelho oeirense. O wi fi gratuito, diga-se de passagem, também dá jeito, e os utentes agradecem. Se alguém manifestar uma indisposição, por mais leve que seja, é reencaminhado para um discreto gabinete de improviso, onde uma médica faz perguntas e mede a tensão arterial, só para ter a certeza que está tudo bem. Entretanto, já o utente tem um cartão especial com o lote da vacina administrada e a data da segunda dose.

À saída, oferecem um saco de papel com uma embalagem de máscaras, um frasco de álcool-gel, um folheto explicativo, e uma maçã. Afinal, diz-se que este é o fruto que, consumido uma vez por dia, mantém o médico à distância. Com a ajuda da vacina, esperemos que seja o princípio do fim da malfadada pandemia. Desta vez, não se testemunhou qualquer manifestação de chico-espertice para passar à frente, nem se acumularam filas quase quilométricas, como outros relatos que pululam nas redes sociais nos contam. Foi sorte? Também. E organização.

Uma nota final: as equipas nesta frente de batalha (esta e outras) mereciam não só todos os folhetos de elogio (fiz questão de preencher um deles), como a recompensa devida. E não falo apenas de uma condecoração no 10 de Junho.

Leave a reply

Please enter your comment!
Please enter your name here