Quando o Estado falha

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Um milhão e quatrocentas mil pessoas prescindem de uma profissão, de um modo de vida, de um emprego, para cuidarem de familiares incapacitados. São os chamados “cuidadores informais”, tratam dos pais, avós ou filhos que por doença ou acidente são pessoas dependentes, sem possibilidade de sobrevivência sem o apoio que os cuidadores informais lhes prestam.

Quem paga este trabalho? Ninguém. Eles substituem o Estado quando o Estado se ausenta e, como tal, prestam um serviço ao Estado, porque é ao Estado que cabe o dever de cuidar dos seus cidadãos.  

Nos últimos meses, devido aos efeitos da pandemia covid-19, que provocou o colapso de muitas respostas sociais, aumentou o número de cuidadores informais.

Um inquérito nacional da responsabilidade do Movimento Cuidar dos Cuidadores Informais dá conta desta situação. O estudo vai ser hoje apresentado, em Lisboa, no decorrer do Encontro Nacional de Cuidadores Informais, precisamente no Dia do Cuidador Informal.

Em declarações à agência Lusa, uma responsável da Associação Nacional de Cuidadores Informais (ANCI), que integra o movimento, destacou como um dos principais resultados do inquérito o facto de este ter demonstrado que o número de cuidadores informais em Portugal é mais elevado do que que se estimava, consequência da pandemia. “Neste momento, e segundo os resultados do inquérito, o número duplicou e eu julgo que isto tem a ver realmente com o fecho das respostas sociais. Havendo este fecho e esta falta de respostas, o número de cuidadores realmente exacerbou”, diz Nélida Aguiar.

O inquérito revela dados já há muito percepcionados e algumas surpresas: “parece que muitos dos cuidadores informais não têm qualquer tipo de laço familiar com a pessoa de quem cuidam e isso mostra uma realidade que não foi vista, por exemplo, no Estatuto do Cuidador Informal, que apenas reconhece cuidador alguém com laços familiares”, realçou a Nélida Aguiar, membro da direção da ANCI.

“Todos sabemos que existem milhares de cuidadores em Portugal e têm muito poucos apoios, apesar de enfrentarem enormes desafios, não só económicos, sociais, emocionais”, acrescenta Nélida. A falta de apoio é, aliás, bastante clara para a quase totalidade dos inquiridos, já que 97,5% defende mais apoios para estas pessoas, sendo que 85,5% entende que deveriam ser apoios financeiros, 71% quer mais apoio ao nível da prestação de cuidados, 68,5% pede apoio laboral, 64% apoio psicológico e 49% apoio legal.

Nélida Aguiar defende que a pandemia não pode ser usada para continuar a atrasar todos os processos burocráticos e sublinha que mesmo antes do aparecimento da covid-19 o estatuto do cuidador informal já não respondia a todas as necessidades e que deveria, por isso, ser revisto.

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