A muralha na cidade

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Eram assim uns muros enormes. Fortes. Grossos. Só uma porta, por vezes levadiça sobre um fosso d’água, dava acesso ao seu interior. Hoje, são lembranças dessoutros tempos – a preservar!

Sim, essa é a mentalidade de agora, em que muralha antiga é «património» e ai de quem ouse beliscar um só pequeno trecho que seja. Ou uma pedra, até!

Nem sempre, porém, foi assim.

Primeiro, porque tinha-se pedra ali à mão de semear e não valia a pena ter de ir buscá-la mais longe: vai-se à muralha, parte-se uma porção e há ali material de construção que baste. E foi um fartar, vilanagem!

Depois, porque a muralha está num sítio invejável para o alargamento urbano. Ainda há dias eu li uma carta, datada de 15 de Dezembro de 1900, que dava conta do «fragmento de uma pedra tumular romana, que a Direcção das Obras Públicas mandou depositar no Museu», achado «meses antes, demolindo-se parte da muralha de Beja para edificação do palácio das repartições públicas». Vá lá, desta vez, guardou-se a pedra fora do comum.

as muralhas medievais de Beja e o arco romano

Muralhas medievais acabaram por se manter. E aí temos a bonita Óbidos, a orgulhosa Almeida, a vigilante Elvas e, entre muitas outras, felizmente, Évora, que até se sagrou património mundial. Mas as romanas, senhores, a Idade Média e outras idades, mesmo agora (quando há um descuido), encarregaram-se de as ir carcomendo. Excepção foi, por exemplo, Conimbriga, porque, no século IV, perante as invasões, a população se deslocou para Coimbra, nas margens do Mondego e os que decidiram ficar construíram as suas casas mais para o lado, actual Condeixa-a-Velha, apenas tendo cortado parte do anfiteatro romano.

As ruínas romanas de Conímbriga e o castelo medieval de Óbidos

Assim, para além das muralhas do castelo de S. Jorge – que os senhores do Antigo Regime até quiseram restaurar para mostrar a antiguidade do País e que também já então se apreciava o legado de prístinas eras – vão-se descobrindo na capital trechos da chamada muralha de D. Dinis (atenção, senhores construtores!), da muralha fernandina (a pedir meças à idêntica da ‘capital do Norte’) e… até da muralha romana, do que, recentemente, se logrou preservar um bom tramo dentro do hotel Eusrostar Áurea Museu.

Muralha romana em Londres

Se por estas bandas da Europa Ocidental não admira que haja muralhas romanas, poderá causar admiração ver, junto ao Tamisa, em Londres, um troco gigante da muralha antiga, a muralha da romana Londinium.

muralha romana de Londres

E, ao contrário do que hoje acontece (pois parece que não têm orgulho em pertencer ao Velho Mundo…), há anos que esse vestígio foi nobilitado e, inclusive, perto dele se erigiu estátua brônzea ao imperador romano Trajano, em jeito de saudação e até apetece a gente ir dar-lhe um aperto de mão!

Trajano e José d’Encarnação

Vista um tudo-nada mais ao longe, não deixa de ser surpreendente admirar o contraste entre a imponência dessas argamassas antigas, a desafiar os séculos, e a altivez dos modernos arranha-céus que lhes ficam por detrás. Um diálogo de gerações.

E para que melhor se compreenda o que ali está e o que ali existiu, houve mesmo o cuidado de, além dos habituais painéis explicativos, um outro haver com uma hipótese de reconstituição do que poderia ter sido a artéria romana que, com vida, por ali, há mais de dois milénios, passava.

Ao entrarmos para o barco que nos vai levar para uma visita à cidade pelo Tamisa fora, não resistimos a olhar para trás:

– Olá, Romanos! Vocês estiveram aí, não foi muito tempo, é verdade. Decerto, também será por isso que os londrinos queiram estar tão longe de nós.

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