Estratagemas…

Ao ver, em 2023, o aparente e sereno à-vontade com que um soldado decapitava um inimigo ajoelhado e atado e, sabendo que estava a ser filmado, limpou o cutelo na roupa do decapitado; ao aperceber-me – ainda que, felizmente, de longe – dos genocídios diários perpetrados pelo mundo neste dealbar de 2024, tenho dificuldade em descrever o ambiente social que determinou a Revolução de 25 de Abril de 1974 em Portugal.

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Nasci em Dezembro de 1944. Recordo ter acompanhado muitas vezes minha mãe, em criança, a lojas determinadas, para comprar os alimentos que estavam racionados nesse pós-guerra. Nunca, porém, passámos fome, até porque, estrategicamente, a família estava inscrita em mais do que uma loja. Estudei em escolas salesianas e fui educado na religião católica.

De condição muito humilde, nunca meus pais se meteram na política. Havia, contudo, um certo ‘respeito’ (no sentido de ‘cautela’, ‘cuidado’) em relação a conversas sobre esse tema. O ‘comunismo’ era visto como algo de nefando e não admira que, aos 18 anos, ao escrever o livro Devagar, Coração!, eu tenha imaginado o rapto de jovens por um submarino russo, conto esse que foi, por isso, asperamente criticado por um amigo de esquerda.

Estudei na Faculdade de Letras de Lisboa de 1964 a 1971. Curso de História e Curso de Ciências Pedagógicas. Comecei, desde cedo, a escrever crónicas para o jornal Encontro, da Juventude Universitária Católica (dirigiu-o João Lobo Antunes e Pedro Roseta), e para o Tempo. Não hesitei em ser o ardina de ambos à entrada da Faculdade, mas, confesso, sentia sempre que estava a ser observado. Um dos contínuos, disseram-me logo, «era da PIDE», que eu tivesse cuidado. E tive.

Ingressei em 1964 no corpo redactorial do jornal A Nossa Terra; passei, em Outubro de 1967, para o Jornal da Costa do Sol, onde me mantive, com colaborações semanais, até à sua extinção, em Janeiro de 2010. Uma intensa actividade jornalística, boa parte, portanto, em tempo de censura e foi por essa via que eu mais senti o peso do regime. Era preciso recorrer a estratagemas para que os censores não nos cortassem o que queríamos dizer. Não era tanto escrever expressamente contra o Governo, era mais chamar a atenção para situações que, do ponto de vista social, deveriam ser sanadas.

Por exemplo: nasceu em 1965 o Teatro Experimental de Cascais. As peças eram vistas e revistas pelos inspectores da Censura; falas eram, por vezes, cortadas e houve mesmo algumas peças impedidas de ser levadas à cena. No jornal, nada disso se poderia dizer e mesmo as notas de crítica eram passadas a pente fino. O Teatro, a Imprensa, as Artes Plásticas poderiam ser – e eram! – veículos de consciencialização política. Guardávamos religiosamente as provas censuradas e temos pena de que, após o 25 de Abril, os arquivos do Jornal da Costa do Sol tenham sido ‘desviados’, ainda se não sabe por quem. Todo esse ‘manancial’ se perdeu.

Dei a esta minha crónica o título de estratagemas, porque essa era, sem dúvida, a nossa preocupação de jornalistas: escrever o que queríamos, sem que o censor compreendesse bem.

Recordo a estupefação que tivemos, um dia, quando a censura cortou o título – apenas o título! – da habitual rubrica do director, «Lengalenga». Era uma rubrica em que, em jeito de lamúria, de conversa fiada a que se não liga grande importância (isso significa ‘lengalenga’), João Martinho de Freitas, o director, ia verberando o que estava menos bem a nível local. Pois, nesse dia, o censor não cortou o texto, cortou apenas o título, de tal modo que houve que perguntar aos senhores da Comissão de Censura se a rubrica poderia continuar a ser assim designada – e pôde.

Jornal da Costa do Sol chegou a ser – juntamente com o Jornal do Fundão e o Comércio do Funchal, por exemplo – um dos periódicos obrigados a apresentar à Comissão de Censura as provas de página, a partir do momento em que passou a haver o ‘perigo’ de a redacção deixar em branco o espaço previamente programado para um artigo que fosse cortado!… Até as legendas das imagens careciam de minuciosa vistoria…

Dois episódios sempre me ocorrem desses tempos pré-Abril.

O primeiro, o súbito desaparecimento, sem deixar rasto, de um amigo. Assim sem mais nem menos. Soube-se depois que fora preso por, tendo ido ver, de passagem não em trabalho, uma manifestação de operários diante do Ministério do Trabalho, deixara cair inadvertidamente o seu cartão de jornalista.

O segundo foi a informação que o director da Escola Salesiana do Estoril (onde leccionei de 1968 a 1976) me deu, a propósito da inopinada desistência de um aluno: os pais não acharam bem que eu comentasse nas aulas As Aventuras de João Sem Medo, de José Gomes Ferreira, livro que, aliás, até fazia parte dos livros oficialmente recomendados. Para esses pais, eu era… ‘um perigoso comunista’!

5 de outubro de 1960, GNR reprime uma manifestação em Lisboa. Fotografia de Eduardo Gageiro

Fiz tropa em 1970 e 1971, tendo passado à disponibilidade por, na sequência de uma agreste semana de campo, eu ter perdido a fala, felizmente recuperada após longo tratamento. Lograra adiamento para poder concluir o curso e diligenciei no sentido de ser chamado no turno em que pudesse vir a ser seleccionado para o Curso de Testadores dos Serviços Psicotécnicos do Exército. Mais um estratagema, como outros muitos de muitos jovens (e seus pais), na década de 60, para não terem de ir pegar em armas e combater no Ultramar.

Na verdade, se a causa imediata da revolução se prende com reivindicações dos oficiais milicianos, a ida dos jovens para a guerra era o espectro que, qual espada de Dâmocles, pairava sobre todos. O fim da guerra, proclamado logo no dia da Revolução, sagrou-se como o maior alívio!

Difícil é, hoje, a não ser para os anciãos como eu, compreender cabalmente o que significaram os anos 60 em Portugal. Fala-se da crise de Maio de 68 em França e das consequentes manifestações de estudantes em Portugal. Eu próprio, quando fui para o quartel em Mafra, onde se preparavam para a guerra os milicianos, logo senti esse pavor: estava bem presente no ar o castigo infligido aí aos estudantes da Academia de Coimbra que, em 69, se haviam manifestado contra o Regime; estavam bem patentes no quotidiano da caserna as instruções nocturnas com fogo real…

Diz-se, amiúde, que «a história se repete». É verdade. Os jornalistas, nas derradeiras semanas de 2023 e nestas iniciais de 2024, sentimos de novo na pele a sub-reptícia, mas real e muito mais insidiosa, língua viperina duma bem disfarçada censura, ao serviço dos mais insuspeitados desígnios…

Post-scriptum: Em edição bilingue (alemão-português), este texto foi também publicado, com leves alterações e sem imagens, em Portugal-Post (Correio Luso-Hanseático), de Hamburgo, nº 75, 04/2024, p. 45-47.

8 COMENTÁRIOS

  1. De: joao gouveia monteiro
    Enviada: 25 de abril de 2024 08:52
    Excelente li integralmente e gostei muito. Quanta riqueza de episódios e vivências! E tanta ligação ao fascinante mundo do jornalismo.
    Abraço forte 25 de abril srmpre!
    João.

  2. De: Lucio Cunha
    Enviada: 25 de abril de 2024 10:41
    Caro José D’ Encarnação
    Meu amigo,
    Serve este email apenas para te mandar um abraço e para que saibas que é sempre um gosto ler as tuas crónicas, as tuas notícias, as tuas ideias sobre Arqueologia, naturalmente, mas também sobre a nossa Universidade, a nossa Faculdade, os nossos colegas, as nossas vidas…
    Apesar de quase nunca responder (deveria fazê-lo mais amiúde), quero que saibas que te leio sempre com agrado, que aprendo sempre um bocadinho e que me revejo quase sempre naquilo que escreves.
    Por isso, neste 25 de Abril, deixo um forte abraço com desejos de muita felicidade e uma vida leve… E escreve sempre, muito e bem, como fazes…

  3. De: Maria Jose Azevedo Santos
    Enviada: 25 de abril de 2024 12:35
    Bom Dia Querido Amigo
    Obrigada Encarnação
    Obrigada pelo teu testemunho de uma realidade que em parte vivi com meus pais que “também não se metiam na política ” mas sofreram e eu talvez ainda mais ,pois vi partir o meu querido Irmão para a guerra na Guiné . Um drama familiar . Esse sofrimento só foi compensado pelo regresso com saúde mas muita revolta .
    Um Dia Feliz
    Um abraço amigo
    Maria José

  4. Boa tarde José d’Encarnação, meu Amigo.
    Acho que já perderam a vergonha. Pior: hoje nem se sabe bem o motivo da censura a uma publicação. Inventa-se um pretexto, informa-se o visado que sofreu castigo e nem se lhe dá direito ao contraditório.
    A entidade responsável, que concentra muitas empresas de comunicação, entende-se entre si. Não se apresenta, manobra na sombra…
    O pior, bem pior, é promover-se, neste processo, a prática da autocensura: já nem se escreve espontaneamente, a pensar nas consequências nefastas.

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