Vá de retro Satanás

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Acredito que até mesmo aqueles que não acreditam estarão pouco ou nada interessados na diatribe que assola o país sobre a tal aplicação a ser inserida no telemóvel para detectar possíveis casos de pessoas infectadas. Ah e tal que a privacidade está garantida, ah e tal que os direitos liberdades e garantias continuam assegurados, mas o facto é que a possibilidade de se tornar obrigatória incomoda muita gente. A coisa vai de tal modo quente nas cabecinhas pensadoras do país que até o próprio Presidente (o da República), deu a entender que se fosse necessário poderia recorrer ao Tribunal Constitucional para que a constitucionalidade de tal medida não seja ferida. Vejo nesta declaração alguma dose de populismo eleitoralista mas isso sou eu que vejo coisas.

Alguns países já têm essa aplicação a funcionar e em Portugal já há muita gente que baixou a aplicação. Mas há relatos de autênticos falhanços do StayAway, desde logo pela demora na recepção dos códigos. Houve quem esperasse 18 dias para receber o tal código, o “abre-te Sésamo” da coisa. Ora como se sabe, o prazo estipulado para confirmação ou não de infecção são 14 dias. Isto é: quando o código chegou, já não serviu para nada.

Não tenho pejo nenhum em declarar solenemente que em relação aos factos, je m´en fous carrément – estou-me bem marimbando, estou-me nas tintas para que a coisa seja imposta com conversa de pé de orelha ou por bastão legal.

E descubro, nas minhas leituras domingueiras que José Pacheco Pereira defende a mesma posição num artigo titulado “em voo de pássaro” -, à vol d´oiseau – de que extraí a passagem que segue:

Que vejo eu no meu voo? O tema que estava predestinado para este artigo era a intenção governamental de nos obrigar a ter por força de lei a aplicação StayAway Covid no telemóvel. Mas como várias pessoas disseram tudo sobre o carácter inconstitucional e violador de direitos que tal obrigação representa, não vale a pena acrescentar mais nada. Tudo estava e está mal feito nessa intenção, de tal maneira que sou capaz de enumerar dezenas de perguntas sobre tal obrigatoriedade cuja resposta é muito complicada de dar, ou mesmo impossível. A proposta também foi feita de “relance”. Acrescento que esta evidente falta de bom senso revela como no Governo prevalece uma forma pervertida de tecnocracia, que acha que tudo se pode resolver com aplicações de telemóvel, sem a mínima preocupação com direitos, liberdades e garantias, que acham que são do mundo pré-Internet.

Afirmo por isso que nunca, jamais, em tempo algum, usarei a dita aplicação, nem que isso signifique ter de deixar de andar de telemóvel. De facto, a pior ameaça nos dias de hoje aos direitos individuais e à privacidade vem de devices e aplicações que usam o actual instrumento de controlo mais eficaz, o telemóvel, até porque está colado ao nosso corpo. Como o relógio de bolso ou de pulso nos impôs o tempo industrial, o telemóvel inseriu-nos na rede de controlos que usam a Rede, uma forma moderna do mundo kafkiano do Processo, onde K. caminha até à morte sem nunca ter acesso a saber o que se passa com ele, quem o acusa, quem o julga, quem o condena.

Calculo que a discussão vai continuar por aí fora por mais uns tempos para “animar a malta” do costume com as suas sábias e habituais tomadas de posição sempre “muito claras e transparentes”, como gostam de esclarecer como início de conversa.

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