As vitórias do Benfica e os milagres de Fátima

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As comemorações da implantação da República evidenciaram de novo o desinteresse dos portugueses pela política e pelo País.

A proclamação da República foi a primeira “gerigonça” da era moderna portuguesa. Basta ver as fotos da Praça do Município. A varanda está repleta. José Relvas entusiasmado. Mas a praça não está cheia. Vêm-se até alguns lisboetas a olharem de soslaio.

Depois de 5 de Outubro de 1910, tem acontecido sempre o mesmo. Indiferença.  Trata-se do mesmo alheamento manifestado nas movimentações que puseram fim ao liberalismo monárquico, que já não era suficiente para os médicos, advogados e pequenos funcionários do Estado e do Comércio.

Foram poucos os participantes na Revolução. Naqueles dias, o senhor Alberto correu muito para trás e para a frente. Alberto, um carpinteiro falecido há 25 anos, que ficou de bem com a República e com a Monarquia. “São a mesma coisa, a monarquia tinha rei, agora temos presidente. O mal  são as  duas dúzias de malandrins que nos ficam sempre com a massa”, dizia ele.

No caso do senhor Alberto, a massa era pouca.  Andou todos os dias, num vai e vem a pé, entre Lisboa e a Amadora. Até aos 80 anos. Para ganhar uns mil reis, como ele ainda dizia.

Era um homem informado, porque trabalhava na reparação das cabines dos cruzeiros e ouvia muita coisa. “ Não  foram os monárquicos desagradados que mataram o rei. Não foi a Carbonária. Sabe quem deu a arma ao Buiça?”

Mas o Povo ajudou. “O Povo estava escondido em casa. Só saiu quando a coisa  mudou. Eu andava a correr, a fazer recados a gente rica com medo de ser atingida pelas bojardas. A polvorosa durava há dois dias. Centenas de soldados e marinheiros combatiam pela República, de forma desorganizada. Muitos  desertaram e foram para casa. Em parte a culpa era do primeiro ministro João Franco, um ditador. O meu pai contava-me tudo. Vivíamos nas traseiras do Largo da Estrela. Corri muito. Durante toda a minha vida. Mas fiquei sempre carpinteiro mal pago, tal como o meu pai.”

O “ficar sempre” do senhor Alberto cavou fundo. Esse “ficar sempre” tem sido o nosso mal. Por isso, 65 % dos portugueses não vota. Agarramo-nos ao trabalho entre as 9 e as 18 horas. Sentamo-nos no sofá a descansar. Não lemos jornais e muito menos livros. Esperamos as vitórias do Benfica e os milagres de Fátima. Não vamos a reuniões de condomínio.  Em rigor, estamos nas tintas para a condução dos nossos destinos, que pouco importa ser para o abismo.

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