Lisboa, quando o batôn não chega

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Circular em Lisboa, a pé, de carro, de transporte público, trotinete, Tuk-Tuk, bicicleta, eléctrico, ou até de burro, está a tornar-se estonteante.

O que é uma contradição, se nos lembrarmos das medidas que têm vindo a ser tomadas pelo edil que veio do Porto e que quer fazer da capital uma rampa de lançamento para Marte, onde vivem políticos topo de gama.

Nos anos 70/80 e até 90, Lisboa era uma cidade saborosamente anárquica, carros nos passeios, multas que nunca eram pagas, tipos a roubarem auto-rádios, taxistas fogareiros, autocarros que apertavam com os medrosos condutores ligeiros.

Os peões passavam entre os carros nos passeios, e saltavam à frente do trânsito, parecendo um grupo de forcados. Podia ser anárquico. Mas a cidade palpitava.

Mas no meio desta confusão, tudo acabava por funcionar e dar à cidade um ambiente naturalmente urbano, entre vendedores de leite à porta, ardinas de voz fadista ou senhoras chiques que iam para o Chiado de chauffeur, nos seus Mercedes  280 S.

Hoje, Lisboa está desinfectada, limpa, usa máscara, preservativo, pinta os lábios das ruas de batôn rasca, faz da pedra liós o material fino para as ruas desertas, e à custa de gente corajosa e investidora que tem metido milhões próprios, sem ajuda estatal, tem apostado na recuperação de edifícios que estavam em ruínas. Depois da chamada Lei Cristas foi possível investir na recuperação da velharia e oferecer ao mercado edifícios para habitação, negócio e turismo.

Mas tudo isto teve uma reação da Câmara de Lisboa e das muitas freguesias que seguem à risca a política municipal. E se Lisboa é hoje uma cidade recauchutada, é porque os milhões disponíveis no orçamento camarário têm permitido fazer obras que nem as cidades mais ricas do Mundo conseguem.

A Praça de Espanha é um projeto megalómano, que não serve nem habitantes, nem quem vem de fora, nem quem sai. Filas intermináveis, engarrafamentos, poluição das máquinas em movimento. Para quê? Para fazer um espaço bonitinho para vender bem em tempo de eleições. O trânsito está assustador. Trotinetes nos passeios, abandonadas, ou a andarem a 40 km por hora. Bicicletas fora de mão, por cima  dos passeios, pelo meio dos carros. Tuk-tuks poluidores por toda a cidade, só alguns são eléctricos, motoristas da UBER que conduzem como domingueiros, motas da UBER que aparecem como abelhas nos semáforos.

Hoje andar nos passeios é um caminho de alto risco. E se for fraquinho, não tente atravessar o Terreiro do Paço, pois nem um banco há para os velhinhos. Uma cidade que quer ser moderna, mas que se limita a decorar ou a fazer vias para isto e aquilo, mas onde o peão e os veículos que circulam em trabalho são desprezados. Lisboa não é mais uma cidade amiga do utilizador. E o que não funciona não faz sentido e acaba por falir.

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