Palmo e meio de altura e de vida

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Vendem-se em pequenas caixas de plástico transparentes com buraquinhos, são muito
frágeis, custam mais do que um kilo de maçãs, são absolutamente irresistíveis e estão na
moda, é raro o supermercado que não as vende.
Primeiro o sabor doce, impregnado em pequenas bolinhas que ao desfazerem-se deixam
um travo ligeiramente amargo, mesmo só no fim. Subtil. Amoras e framboesas são
fofinhas, feitas de bagos pequeninos, macios, um gourmet da fruta mas são as amoras
que me fazem viajar no tempo.

As férias em casa da avó materna no verão com tios e primos, tipo família italiana, todos a
falar ao mesmo tempo. Nós, os miúdos ficávamos mais à vontade para dar umas voltas
enquanto os adultos falavam em catadupa.
No caminho do tanque natural de água que visitávamos, as libelinhas pareciam bolas de
sabão e não ameaçavam ninguém. Na volta havia uma amoreira selvagem espalhada
pelo morro comprido, carregadinha de amoras. Parávamos a comer desenfreadamente as
ditas, riamos com as línguas azuis uns dos outros e regressávamos a casa com um terço
das que tínhamos apanhado. O sermão era garantido. Não podíamos comê-las sem
deixar nódoas eternas na roupa e claro e ouvir um ralhete infindável! Mas valia a pena, a
barriguinha cheia, o gozo de as apanhar, o desafio de conseguir chegar às maiores, mais
escondidas.
Os crescidos diziam-nos, uma e outra vez, que provocavam dolorosas maleitas na barriga
mas nenhum de nós teve essa péssima experiência. E voltávamos orgulhosamente com
tatoos nos braços, grandes arranhadelas, por tentarmos chegar às maiores que estavam
no topo e qualquer um de nós tinha apenas um palmo e meio de altura e de vida.

Quando volto à infância, às férias na “terra”, as amoras são das primeiras recordações
que me ocorrem. Era uma brincadeira, um prazer gustativo e sensitivo, um sermão
garantido. Hoje acredito que a minha mãe se tinha conformado há muito com as nódoas e
as tatoos de guerra, e apenas fazia o papel dela. Aposto que fez o mesmo quando era
miúda, aposto que as nossas mazelas a faziam navegar à sua própria infância. Agora era
a mãe, tinha de nos dizer que eram perigosas, algo que nenhum de nós engoliu.

Cada vez que vejo uma caixinha com meia dúzia de amoras, volto a esse sítio onde
soprávamos bolas de sabão, por tubos feitos de cana, que o meu avô limava com a
navalha que trazia sempre no bolso. Estes tubos “biológicos” são muitos diferentes
daquelas coisas plásticas de agora. As bolas saíam muito maiores, era mais fácil controlá-las, cresciam estupidamente. Havia então o concurso da bola maior e daquela que
aguentava mais tempo.
Numa bola de sabão está o arco-íris. Se é bonito vê-las deslizar pela brisa, quando
rebentam assim, de repente, dispersam-se como se fosse pó mágico. Nunca nos
cansávamos da brincadeira, nunca nos cansávamos de sermos crianças.

Havia só uma coisa que era literalmente uma seca. A sesta dos adultos depois de almoço. Não podíamos sair dali nem fazer muito barulho, ficámos presos no sono dos crescidos. O
tempo demorava uma infinidade de horas, tal como o tempo obrigatório de digestão na
praia. O mar à frente do nariz, os adultos a dormir, nós sitiados na areia…
Há muito que se acabou a hora da digestão e só por volta dos 40 passei a fazer sestas.
Uma horita, regressa-se ao dia rejuvenescida com alguma lazeira é certo, mas em
suavidade com a realidade. Mas só consigo fazê-las na terra, na cidade é quase
impossível. Falta-me a tranquilidade, o embalo dos bicharocos que por lá andam, as
amoras e as bolas de sabão. Encosto-me, fecho os olhos, adormeço ingenuamente. Não
sei se sonho com amoras, bolas de sabão, ou a família a falar toda ao mesmo tempo.
Descanso apenas.

As memórias estão lá todas naquela casa onde foram criados cinco filhos com parcas
condições. Ainda está lá a minha avô a esfolar um coelho num ritual só dela. O meu avô
encostado perto do borralho a dizer “ai de mim se não for eu”. Na altura riamos todos com
a frase, depois em adulta, compreendi a lição de vida. Estão todos lá, não fazem barulho,
não os posso ver mas fazem parte de mim.
A infância é sagrada, não obstante os castigos e ralhetes, é um estado de pura felicidade
que a vida vai insistindo em nos roubar. É importante saber de onde vimos, crucial para
perceber onde queremos e até onde podemos ir. Ou não… Há infâncias criminosamente
roubadas. Brutalmente desfeitas. Tiram depois aos adultos que crescem metade da
oportunidade de serem felizes.
Não tenho esse azar. O meu pai é alfacinha, as memórias são muito diferentes mas ao
mesmo tempo iguais, de alegria. Lembro-me da garagem do Sr. João, cheia de carros
mais do que velhos, onde eu e os meus primos nos sentávamos a ver os filmes do Charlie
Chaplin que ele projectava na parede todo orgulhoso. Que luxo, que privilégio!

Sou lisboeta mas não esqueço a minha costela beirã, muito menos o arroz doce sem ovos
da minha avô que benzia a massa antes de cozinhar a broa num forno de lenha gigante.
Continuo a gostar dela mal cozida, estaladiça por fora, meio amanteigada por dentro.
Também não esqueço a imagem que a minha mãe me deu, horas antes de me pôr neste
mundo. Decidiu saltar as fogueiras de São João com uma barriga enorme. Nove horas
depois aterrei neste mundo.
Ainda miúda, não esqueço o dia em que o meu pai, antigo marchista, levou a a marcha de
Marvila ao bairro onde vivíamos. Foi das vezes que o vi mais comovido, mais orgulhoso.
Não esqueço também o dia que a minha mãe perguntou aos filhos o que achavam de
recuperar aquela casa velha dos meus avós. Claro que sim! Não podia perder o sítio onde
faço a sesta, nem as nódoas, muito menos as bolas de sabão. A minha infância é de ouro,
do meu pai a dizer “continua a andar” quando já não estava a agarrar a minha bicicleta
por trás.

Manchar uma camisa com nódoas de amoras é grave, é muito aborrecido para quem tem
de as lavar. Mas acabam por sair, ao contrário de outro tipo de nódoas. As que nunca
mais saem, as que marcam a vida pelas piores das razões. Com violência, sem amor,
com trabalho forçado, com todas as coisas más que podem estragar irremediavelmente a
infância e a vida que se segue. Este tipo de nódoas são um pecado capital, um crime
hediondo, muitas vezes uma consequência da infância triste de quem as faz. Mas não
encontro desculpas ou compreensão.

Podem roubar-nos tudo, a vida faz questão disso. É com a infância que lhe sobrevivemos. Com nódoas sim, mas de amoras.

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