A CHOLDRA DOS ADVERSOS

"A Choldra dos Adversos" é uma sátira política violenta e indignada que retrata Portugal como uma "pátria de farsa", sufocada pela corrupção e pela perda de valores morais. Utilizando uma linguagem crua e agressiva para atacar a classe governante — descrita como um grupo de criminosos de "fato e gravata" que vende o país por interesses pessoais —, ao mesmo tempo que lamenta a passividade de um povo submisso. Perante este cenário de degradação e revolta extrema, o poema rompe com o politicamente correto e exige a destruição total deste sistema corrompido. Contudo, o texto não termina no desespero; a salvação e o renascimento da nação são projetados através da cultura, evocando a força e o génio de grandes figuras literárias como Fernando Pessoa, José Régio, Almada Negreiros e Teixeira de Pascoaes para resgatar a dignidade e a identidade perdidas de Portugal.

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A Choldra dos Adversos

Nesta pátria de farsa e de elóquio barato,
Onde o político é o rato que rói a nação,
Cospe-se o povo num prato de ingrato,
Enquanto se vende, por trocos, o chão.
É um guaiar de hienas em cira constante,
Uma amena brincadeira de quem não tem brio,
Onde o mentiroso se sente gigante
E o país se afoga num mar de vazio.

Crises sob medida, encomendadas no lodo,
Por ignotos devotos da própria pança,
Bestas lesadas que vendem o todo
A troco de um cargo ou de uma esperança.
Angária imunda! Bestas de fato e gravata!
Em democracias paridas num beco qualquer,
Onde a honra se compra e a decência se mata,
E o povo se verga ao que o mestre quiser.

É toda a merda que cheire menos mal,
Ou mal porque cheira a carcaça e a mofo,
Um fedor que invade este Portugal
Enquanto o bandido se encosta no fofo.
Inovai a real bruma, falécios duma figa!
Cessai o teatro, a desfaçatez e o verso,
Pois não há paciência que vos bendiga
Neste pântano imundo, neste universo inverso.

Longe com as rimas que só nos insultam!
Envergonham as quinas, mancham o brasão!
São ratos de esgoto que as leis consultam
Para encontrar o caminho da nova traição.
Criai o abismo! Cavai a vossa própria cova!
E empurrem para lá cada ismo de estimação,
Cada crata que vive de mama e de prova,
E ide vós também... para a puta que vos pariu a intenção!

Que o precipício vos coma, de um trago só,
E que da vossa carniça não reste memória,
Pois este país já não aguenta ser pó
Nas mãos de quem caga por cima da História.
E depois que o ar limpe do vosso veneno,
Que se erga Portugal, livre desta corja,
Num dia de sol, de futuro sereno,
Forjado de novo em sagrada forja.

Que nasça um Pessoa que nos parta em mil,
Um Régio que grite o "Não!" absoluto,
Um Almada que limpe este povo servil,
Um Pascoaes que arranque o país do seu luto.
Que venham os mestres da alma e do génio,
Varrer a escumalha que o trono ocupou,
Para que o brio não seja um milénio
De algo que a história um dia roubou!

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