OS TÚNEIS

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Túnel militar da I Guerra Mundial, em França

A ideia de que os palestinianos “fizeram túneis em vez de construir um país” tornou-se um dos argumentos mais repetidos para justificar ou relativizar a devastação da Faixa de Gaza. É uma frase tão repetida, sempre tão igual, que mais parece ser uma reação gerada por algum software. O argumento, porém, ignora um facto elementar da História: os túneis são uma das mais antigas táticas militares alguma vez utilizadas. Não nasceram em Gaza, nem foram inventados pelo Hamas. Acompanham a guerra desde a Antiguidade.

Muito antes da invenção da pólvora, os exércitos já escavavam túneis para entrar ou fugir de cidades sitiadas. Há túneis com mais de 3 mil anos. Durante o Império Romano, as operações de “mina” e “contra-mina” faziam parte dos cercos militares. Na Idade Média, a escavação de túneis era um procedimento comum em praticamente todas as grandes campanhas militares, tanto na Europa como no Médio Oriente.

Na época contemporânea, o recurso ao subsolo tornou-se uma marca das guerras assimétricas, em que uma força muito inferior procura compensar a superioridade tecnológica do adversário. No Vietname, os guerrilheiros construíram centenas de quilómetros de túneis que serviam de abrigo, hospital, armazém, centro de comando e via de circulação, permitindo atacar as forças norte-americanas e desaparecer novamente debaixo da terra.

Túneis de Cu Chi, no Vietname, hoje são atração turística

Na península da Coreia, os túneis desempenharam igualmente um papel estratégico durante o conflito peninsular que levou à criação de dois Estados. No Afeganistão, primeiro os mujahidin e depois os talibãs utilizaram túneis, galerias e complexos subterrâneos para resistir a exércitos muito mais poderosos, protegendo homens e material dos bombardeamentos aéreos. Em Timor-Leste há vários túneis que foram escavados e utilizados pela resistência durante a ocupação indonésia.

O padrão repete-se ao longo da História. Sempre que existe uma enorme assimetria de meios, o lado mais fraco procura explorar o terreno para reduzir a vantagem do adversário. Uns recorrem às montanhas, outros às florestas, aos pântanos ou às cidades; quando essas opções não existem, recorrem ao subsolo. O túnel é uma resposta militar tão antiga quanto a própria guerra.

Japão, os túneis de Okinawa foram bloqueados pelos militares dos EUA no final da II Guerra Mundial e morreram cerca de 2 mil soldados japoneses encurralados. As ossadas foram recuperadas em 1950.

Por isso, afirmar que os palestinianos “fizeram túneis em vez de construir um país” não é uma análise histórica; é um slogan. A questão essencial não é a existência de túneis, mas as condições em que surgem. Ao longo de milhares de anos, os túneis apareceram repetidamente onde um exército ou uma força de resistência enfrentava um adversário militarmente muito superior. Oque se passou em Gaza não constituiu uma exceção a essa regra; é apenas mais um capítulo de uma longa história de guerra subterrânea.

Criticar um movimento político-militar cercado por construir túneis é como censurar um náufrago por construir uma jangada. Uma jangada serve para tentar sobreviver. Um túnel também.

França, Chemin des Dames, onde trinta mil soldados franceses morreram em dez dias de Abril de 1917. Debaixo de terra, as forças francesas e alemãs combatiam corpo a corpo.

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