FARMAR AURA

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Fim de verão. As noites ainda convidam a saídas e há que aproveitar. Um evento aqui, outro ali, um passeiozinho na rua das lojas, uma conversa no calor morno de uma esplanada. E, como em qualquer cidade pequena, o encontro, a toda a hora e em todo o lado, com um conjunto de pessoas que fazem da ubiquidade uma forma de vida. Entes que não perdem uma festa, um arraial, uma feira, um festival, um sunset, uma sardinhada ou qualquer outra ocasião em que haja gente para ver e ser vista. Estão sempre lá, com uma admirável energia para a vida social. Uma resistência para a qual só encontro explicação num qualquer desígnio da Providência. Admiro a forma como seguram sem vacilar sorrisos tão honestos como as pérolas, brilhantes e relógios suíços que ostentam.

Nos últimos dias, porém, reparei numa presença inesperada. Uma criatura de espécie diferente, tão adaptada a este habitat como uma lagartixa ao fundo do oceano. Mas esforça-se. Imaginemos uma lagartixa persistente, a movimentar-se dentro de um escafandro. A tentativa de se mover com agilidade travada pelo desconforto que a envolve. Mas lá está ela para onde quer que eu me vire. Surge de repente. Só lhe vejo os grandes olhos ansiosos ampliados pela armação de massa negra que os contorna. Sinistra. Pior que uma assombração.

Há muito que ansiava pela atenção alheia. A observação atenta dos seus ídolos levou-o a concluir que o cargozinho a que finalmente chegou por falta de concorrência era a oportunidade que procurava. Agora era ir ao encontro dos lugares, das pessoas e das ocasiões certas e aguardar. Já se imaginava a ser reconhecido nos bares da universidade, no elevador do prédio, na churrasqueira da esquina. A fama estava agora ao seu alcance e o plano parecia perfeito. Mas a arte de aparecer não lhe está no sangue. Na verdade, não lhe está em lado nenhum. É vê-lo, de rua em rua, de festa em festa, a meter conversa, a circular, a estender a mão receosa de não ser correspondida. E com razão, diga-se de passagem, pois ainda que tenhamos de reconhecer o esforço, não tem jeitinho nenhum para estas andanças. Não tem graça, e, por mais que se aproxime e tente integrar-se, nunca passará de uma criatura sem brilho, sem alma, com o carisma de uma folha de alface murcha, esquecida no fundo de uma gaveta do frigorífico. Daquelas que já nem cheiro têm.

E estava eu, então, sentada numa esplanada com a família, quando me apercebi mais uma vez da sua presença. Um visual diferente: roupa leve, jovem. A procura de uma versão mais moderna de si próprio. O desejo de parecer cool tão óbvio que doía e evidenciava ainda mais a falta de à-vontade. Aquela aragem a entrar por debaixo da camisa que nunca tinha andado fora das calças e sem o aconchego do cinto estava a dar cabo dele.

A dado momento, puxou de um cigarro. Não pude conter uma gargalhada. Nunca o vira fumar. Alguém lhe deve ter dito que aquilo o faria parecer mais interessante. E lá ia enchendo as bochechas de fumo que deitava apressadamente fora, não fosse engasgar-se.

Comentei a personagem com os companheiros de mesa. Perguntei se viam o mesmo que eu e se conseguiam perceber o meu sentimento de vergonha alheia. O adolescente ao meu lado observou por uns instantes e concluiu:

— Não percebes. O tipo anda a farmar aura. Mas assim não vai lá. Se viesse com o escafandro… uma lagartixa a cuspir fumo daquela maneira, arrasava. É muita aura. Votava nele para a associação de estudantes.

Apanhou-me de surpresa. Querem lá ver que aquela alma velha, cinzenta e desenxabida a sabe toda e ainda vai a Presidente da Junta!

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