Faleceu José António Piñeiro Nagy em julho passado. Nascera em Lisboa, filho de pai galego e mãe húngara. As notícias – inclusive as veiculadas por um departamento camarário – salientavam que fora o criador e diretor do Festival Estoril-Lisboa e que, devido ao seu falecimento, se cancelavam todas as iniciativas previstas para 2026. O tema desta 52ª edição cancelada era «Celebramos Património».
Poder-se-ia historiar o que foi a ação do músico, desde que, na década de 60, veio para Cascais com a sua guitarra clássica, a sua ampla cabeleireira a emoldurar-lhe o rosto, e ousou propor a realização de concertos seus, numa altura em que este instrumento não era popular nem concitava grande interesse, mesmo por parte dos artistas. Recordo-o, tímido, na Sala de Música do Condes de Castro Guimarães, o dedilhar a fazer-se eco da suavidade das ondas a espraiar-se sob a ponte da Praia de Santa Marta…
Pouco e pouco, porém, os concertos e, de modo especial, os cursos que ministrou acabaram por suscitar entusiasmo.

Pelo seu dinamismo, Piñeiro Nagy começou a integrar a equipa responsável dos Cursos Internacionais de Música do Estoril que, desde 1962, traziam à então Costa do Sol, com o apoio da Junta de Turismo, presidida pela clarividência de Joaquim Miguel de Serra e Moura, mestres conceituados das mais variadas latitudes. Recordo a pianista Helena Sá e Costa, o violinista Sándor Vegh, o maestro Manuel Ivo Cruz (um dos grandes responsáveis pela iniciativa), a maestrina Nadia Boulanger, o violoncelista Maurice Eisenberg. Não será nada despiciendo lembrar que aí foram alunos a pianista Maria João Pires e o maestro Álvaro Cassuto (falecido a 6 de Abril, p. p.)
Essa mesma equipa tornou possível o Festival Internacional de Música, numa altura em que – importa frisá-lo – apenas o Festival de Sintra, no então Carlos Manuel, estava presente num calendário das iniciativas musicais do País. O Festival foi fundado em 1975, no seio da Junta de Turismo da Costa do Sol, com o nome Festival de Música da Costa do Sol, sob proposta de Piñeiro Nagy e o aval do compositor Fernando Lopes-Graça, do musicólogo João de Freitas Branco e da pianista Helena de Sá e Costa, em complemento dos Cursos Internacionais de Música. Em 1981 é assinado o protocolo que confere a organização e gestão do Festival à Associação Internacional de Música da Costa do Estoril, criada exclusivamente para esse efeito, e altera o nome para Festival de Música da Costa do Estoril.
Hoje, que os festivais de música (mas não de música clássica) pululam por Portugal de lés a lés, não se faz a mínima ideia do que era propor superiormente, e ver aprovada, a realização de um Festival de Música! Primeiro, porque se partia do princípio de que não haveria público, o que depressa se revelou falacioso; segundo, porque, ainda não estando em clima revolucionário (o 25 de Abril viria depois) a Música Clássica era ainda vista como destinada a uma elite endinheirada – outra falácia! E não será de somenos assinalar que por cá, nesse âmbito, estiveram o bailarino Rudolfo Nureyev e o mimo Marcel Marceau!
Vale, pois, voltar atrás, ao que ficou cancelado: o 52º Festival Internacional de Música. Façam-se, então, as contas: 2026-52 = 1964! Piñeiro Nagy sempre presente, lutando contra tudo e contra todos. Sempre ansioso se os prometidos apoios não chegavam… Tanta vez o entrevistei, inclusive na esperança de virem a desatar-se os cordões às bolsas!…
Extinta a Junta de Turismo – cuja atividade cultural ainda não terá sido devidamente posta em relevo, quiçá por essa sua atividade ser considerada direta emanação do poder político central (puro engano!) – foi preciso bater a muitas incrédulas portas e também por isso se tornou necessário estender a Lisboa o Festival, dado que os responsáveis pelos organismos locais não estavam ainda devidamente consciencializados da sua importância. Uma história por fazer!…

Sangrou-se-me, pois, o coração com o silêncio autárquico, aquando do passamento do Professor, a total ausência de eleitos, no seu funeral, a 4 de Julho, em Alcabideche. Piñeiro Nagy não merecia. Esteve apenas – e a título particular, de amizade – Catarina Roquette, da Casa-Museu Verdades de Faria, uma das joias que Piñeiro Nagy tanto prezou, o Museu da Música Portuguesa. O silencioso e significativo abraço que trocámos entre nós e com Dulce Nagy (a viúva) e os familiares simbolizou o que ambos desejaríamos ter sido um outro abraço maior.



