Hoje vou falar de Doris Wieser, professora de Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa na Universidade de Coimbra. Tive o privilégio de a conhecer aqui, em Luanda, e, poucos dias depois, assistir, na sua companhia, à exibição do documentário “Viver e Escrever em Trânsito entre Angola e Portugal” (2021), de que é realizadora.
Há qualquer coisa de especial em ver um filme ao lado de quem o pensou, o escreveu e o realizou. Não vemos apenas as imagens; inevitavelmente relacionamo-las com as conversas da véspera. Tentamos perceber os silêncios, as hesitações, as escolhas e até as perguntas que ficaram por fazer.
No final, a conversa prolonga o documentário, e o documentário prolonga a conversa. O filme reúne os testemunhos de seis escritores cujas vidas se desenham entre Angola e Portugal — Ana Paula Tavares, Aida Gomes, Kalaf Epalanga, Raquel Lima, Yara Monteiro e Zetho Cunha Gonçalves. São percursos muito diferentes, marcados por tempos históricos distintos e por razões diversas para partir, regressar ou permanecer. Mas há um fio invisível que os une: todos habitam esse espaço intermédio onde a identidade deixa de ser um lugar fixo para passar a ser um caminho. Gostei particularmente da palavra escolhida para o título: trânsito. Não exílio, não diáspora -e discutimos muito o significado desta palavra-, não retorno. Trânsito. Uma palavra suficientemente ampla para acolher quem partiu por necessidade, quem escolheu partir, quem regressou, quem nunca regressou e quem, de certa forma, continua a viver entre dois lugares.
Talvez seja essa a grande força do documentário: evitar categorias fechadas e mostrar que as identidades raramente cabem nas etiquetas que lhes queremos colocar.
Gostei muito daquele fim de tarde, já noite cerrada em Luanda. Porque, por algumas horas, a literatura, o cinema e a conversa sentaram-se às mesmas mesas: primeiro no quintal do Hotel Globo, depois à mesa de uma pequena tasca. E também porque fiquei com a certeza de que algumas obras não terminam quando aparecem os créditos finais. Continuam nas conversas que provocam, nas perguntas que deixam e, neste caso, na vontade de descobrir muitos escritores e escritoras angolanos que ainda não conhecia.
E esta, suspeito, será apenas a primeira de várias crónicas que nasceram destes dias improváveis em Luanda.

O documentário “Viver e Escrever em Trânsito entre Angola e Portugal” pode ser visionado neste link.



