Dir-se-á, desde logo, que se trata de um livro normal: tem um enredo que prende do princípio ao fim; está bem escrito; gramaticalmente bem redigido; a autora faz bom uso da pontuação; os diálogos são introduzidos por dois pontos, parágrafo, travessão; a descrição da paisagem é ligeiro apontamento, aqui e além, só para enquadrar a acção; é um livro sem gralhas.
Leitura fácil, agradável, fluente – sem precisarmos de estar sempre a ir ao dicionário ver o significado de uma palavra ou expressão. Cansa-nos, por outro lado, se temos dificuldade em distinguir as falas dos personagens da descrição de ambientes.
Um romance tem, necessariamente, muito de autobiografia. Neste caso, a protagonista é arqueóloga no Algarve, o que corresponde à realidade: Ana Alexandra aí está, gerente duma empresa de Arqueologia. E, tal como a protagonista, foi estudante na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.
Há ainda dois aspectos que não faltam: o primeiro, o triângulo amoroso, o colega de curso e um professor com todos os ingredientes habituais (a sedução fulminante, de um lado, e a serena ternura permanente, do outro); o segundo, a progressiva tónica de romance policial, de caça ao criminoso, que a narrativa vai assumindo.
Ingrediente maior é o recurso à regressão. Eça de Queiroz, n’A Relíquia, muda de cronologia sem aviso: chegado a Jerusalém, Teodorico Raposo, o protagonista, retrocede de repente 1800 anos e passa a viver no tempo de Cristo. No caso de A Viajante do Tempo, Maria consubstancia-se em Tanit, a filha de um vizir egípcio e vive obcecada por um dos amuletos que lhe foi roubado pelo professor.


Não deixa de ser curioso verificar, nesse aspecto, esse paralelismo com a relíquia que Teodorico Raposo vai buscar à Terra Santa para a Titi (https://duaslinhas.pt/2025/02/o-safado/).
Movimentamo-nos no realismo mágico, que, afinal de contas, deixa transpirar muito do nosso cotidiano. Apressados como andamos sempre, há vozes, há sinais, há gestos que amiúde nos passam despercebidos e que, depois, consciencializamos ao declarar «Eu tive um pressentimento», vocábulo que nada mais significa do que essa voz realmente preexistente à qual não ligáramos a devida importância.
Ana Resende sabe discerni-lo e, por isso, é sabiamente anotada a nossa íntima relação com o ambiente atmosférico. Nós, pela manhã, não deixamos de ouvir com a maior atenção o Boletim Meteorológico; mas, se calhar, até nem consciencializamos a sério o que significa essa preocupação matinal: é que nos influencia grandemente o ar que respiramos!




