INTERROGAR O VÁCUO: “O SILÊNCIO TAMBÉM É UMA FORMA DE PREVENÇÃO”, DIZ O DIRETOR-GERAL DO SILÊNCIO INSTITUCIONAL

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INTERROGAR O VÁCUO: “O SILÊNCIO TAMBÉM É UMA FORMA DE PREVENÇÃO”, DIZ O DIRETOR-GERAL DO SILÊNCIO INSTITUCIONAL

Por José de Alfinete
Lisboa, 16 de Junho de 2026

Conseguimos o impossível. Após semanas a enviar e-mails que caíram no esquecimento e telefonemas que morreram no tom de chamada, fomos recebidos pelo Dr. Anacleto Mudez, Diretor-Geral do Silêncio Institucional (DGSI), o organismo transversal que coordena a ausência de respostas na Administração Pública. O Dr. Mudez aceitou falar connosco sob a condição de não respondermos a nada do que ele não dissesse.

Diário do Absurdo (DA): Senhor Diretor-Geral, muito obrigado por nos receber. Gostaria de começar pelo caso do cidadão, que enviou alertas sobre toneladas de madeira seca na encosta da Peninha, em Sintra, e não obteve qualquer resposta da Proteção Civil, dos Parques de Sintra, do Parlamento ou de Belém. O que falhou aqui?

Dr. Anacleto Mudez (AM): (Sorri com bonomia) Olhe, desde já repúdio essa palavra: “falhou”. Não falhou nada. O silêncio que o cidadão encontrou foi um silêncio planeado, rigoroso e de elevada competência técnica. Nós recebemos o e-mail dele a 22 de Maio. E aplicámos imediatamente a estratégia da “Ignorância Preventiva”.

DA: Ignorância Preventiva? O que é isso?

AM: É muito simples. Se nós respondermos ao cidadão a dizer qual é a entidade responsável pela limpeza — se é a autarquia, o ICNF ou os Parques de Sintra —, criamos um precedente perigoso. As pessoas começam a saber a quem exigir responsabilidades. Ao nãorespondermos, mantemos o mistério. E o mistério, meu caro jornalista, é a alma da burocracia. Se ninguém sabe de quem é a competência, ninguém pode ser culpado se aquilo arder. É uma salvaguarda jurídica genial.

DA: Mas o referido cidadão enviou o e-mail para todos os partidos do Parlamento e para o Presidente da República. Nem uma palavra de volta? Como se consegue que dez partidos partilhem o mesmo silêncio?

AM(Orgulhoso) Ah, aí foi o nosso momento dourado de 2026. Conseguir a concertação estratégica do vácuo. O Parlamento debate muito, polariza muito, mas quando o assunto é caruma seca num e-mail de um cidadão, a união nacional acontece. Do PCP ao Chega, da Iniciativa Liberal ao PAN, todos aplicaram a nossa circular técnica n.º 4: “Não digas nada, que o Verão passa”. O cidadão conseguiu o milagre de pacificar a política portuguesa. Devia estar agradecido.

DA: Mas há um risco real de incêndio. A madeira está seca, o Verão começou hoje e os termómetros estão a subir. Ignorar o risco não queima a floresta?

AM: Essa é uma visão muito literal do fogo. Nós temos uma abordagem mais filosófica. Veja bem: o cidadão citou o Decreto-Lei n.º 135/99 para provar que o e-mail dele tem o mesmo valor que o papel. Sabe o que nós fizemos? Imprimimos o e-mail e o decreto.

DA: E foram limpar a encosta?

AM: Não. Arquivámos o papel numa pasta de cartão que guardamos no subsolo do Ministério. Sabe quanto oxigénio há naquela arrecadação? Zero. Sabe qual é o risco de combustão lá dentro? Nenhum. Portanto, tecnicamente, nós mitigámos o risco de incêndio do e-mail do cidadão. O papel está seguro. Se a encosta arder, o processo está intacto.

DA: O cidadão ainda aguarda uma resposta do Chefe de Gabinete do Presidente da República. Há alguma esperança?

AM: Há sempre esperança de que o cidadão se canse. Belém está a processar o silêncio com a dignidade que o cargo exige. Responder com pressa a um alerta de segurança seria ceder à ditadura do imediatismo. Nós funcionamos ao ritmo do Estado, que é o ritmo do século passado.

DA: Uma última pergunta: se o cidadão voltar a insistir e ligar para o número que deixou nos e-mails?

AM: Atendemos, claro. E pomos a música de espera. Temos uma versão em flauta de bisel do hino nacional que dura quatro horas. Se ele passar da terceira hora, transferimos para um departamento que foi extinto em 2011. O sistema funciona, só precisa de tempo.

banda desenhada com recurso ao Chatgpt

Nota final: parabéns pelo milagre de unirem Belém, o Parlamento e as forças locais de Sintra no mais perfeito e harmonioso silêncio institucional de 2026. O país agradece o vosso esforço coordenado para não fazer absolutamente nada.Subscrevo-me, com o respeito que a vossa ausência de pressa exige,

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