Excelentíssimas autoridades, parasitas do erário público e tristes sobreviventes desta pátria moribunda.
Lá estivemos nós, no enfadonho e hipócrita Dia de Camões, de Portugal e das Comunidades. Cumprimos a palhaçada anual de vos ver vestir os fatos domingueiros, ajustar as gravatas pagas pelo contribuinte e limpar o pó aos palcos republicanos. Tudo para celebrar uma identidade que vocês espezinham diariamente. Diz a lenda que o nosso épico maior escreveu: “Cesse tudo o que a Musa antiga canta, que outro valor mais alto se levanta”.
Hoje, ao olhar para a tribuna política e para a javardice que debitam nas redes sociais, percebemos a profecia. Luís Vaz de Camões não falava de glória. Ele previu a vossa capacidade única de decapitar a língua portuguesa num ecrã de telemóvel, enquanto destroem o país.
O Vosso Espetáculo de Analfabetismo
A vossa hipocrisia institucional dá nojo. Enchem o peito com o fumo do nacionalismo bacoco para elogiar a pátria. Mas, nos vossos gabinetes infestados de boys e assessores incompetentes, assinam autênticos atentados ao brio nacional.
Estas são as vossas maiores e mais patéticas obras de arte contemporânea:
- O “há” de existir assassinado e transformado num “à” de ir a algum lado. Cambada de génios.
- O “com certeza” colado com o cuspo da vossa demagogia, gerando um monstro ortográfico que espelha as leis sem nexo que aprovam à pressa.
- Os verbos no infinitivo mutilados, sem o “R” pelo caminho. Pronunciar consoantes gasta energia. Guardam-na para mentir em sede parlamentar.
Heróis da Ignorância
O vosso desprezo pelo expoente máximo da nossa cultura não é um mero deslize. É um desporto de alta competição. Camões enfrentou tempestades, naufrágios e o exílio. Vocês não conseguem vencer a preguiça de abrir um dicionário. Têm o Google à distância de um clique nos vossos iPhones corporativos, mas preferem a burrice. Este sim, é o verdadeiro e vergonhoso feito heroico deste século.
Se a ignorância é uma bênção, os vossos discursos oficiais e os vossos grupos de WhatsApp partidários são o próprio Jardim do Éden.
Continuem assim. Continuem a pontuar frases como quem espirra para cima do teclado. Tratem a sintaxe com o mesmo desapego nojento com que tratam as promessas eleitorais. A nossa cultura agradece o funeral. Um enterro de luxo, pago com os impostos dos vossos súbditos e aplaudido de pé nesta farsa nacional. Viva Portugal. Ou o que quer que sobre dele quando o vosso corretor automático explodir.



