A esperança média de vida aumentou. A medicina evoluiu. A qualidade física e cognitiva de milhões de pessoas com mais de 65 ou 70 anos mudou radicalmente nas últimas décadas. No entanto, muitos dos mecanismos institucionais, profissionais e culturais continuam presos a uma visão antiga da velhice – uma visão construída numa época em que viver muito era raro e envelhecer significava, quase inevitavelmente, incapacidade. Hoje, isso já não corresponde inteiramente à realidade.
Existe uma diferença profunda entre idade biológica, idade mental e idade administrativa. A primeira pertence ao corpo. A segunda pertence à vitalidade interior, à curiosidade, à imaginação e à capacidade de pensar o mundo. A terceira pertence aos formulários, aos regulamentos e às estruturas burocráticas que classificam seres humanos através de números.
E é precisamente aí que nasce uma das grandes injustiças silenciosas do nosso tempo.
Muitas pessoas continuam intelectualmente ativas, criativas e plenamente capazes de contribuir para a sociedade, mas encontram-se progressivamente bloqueadas pelos próprios sistemas que deveriam aproveitar a sua experiência. Sobretudo nas áreas da criação, do pensamento, da cultura, da comunicação e do ensino.
Posso testemunhá-lo pessoalmente. A minha mente continua operacional, inquieta e criativa. Continuo a pensar projetos, ideias, formas de realização, ensino e comunicação com intensidade e vontade genuína de participar no mundo. Em certos aspetos, sinto mesmo que a experiência acumulada me permite hoje olhar a realidade com maior profundidade humana do que em fases anteriores da vida.
Mas a sociedade olha muitas vezes para a idade cronológica como uma espécie de sentença implícita de irrelevância.
É um paradoxo difícil de compreender. Vivemos numa época obcecada com inovação, criatividade e pensamento crítico, mas frequentemente afastamos precisamente aqueles que possuem memória histórica, experiência acumulada e capacidade de síntese.
A criação não envelhece da mesma forma que o corpo. O pensamento não obedece mecanicamente aos calendários administrativos. Há realizadores, escritores, professores, músicos, cientistas e criadores que atingem nas fases mais maduras da vida o auge da sua compreensão humana e artística.
Contudo, os sistemas tendem a empurrar os mais velhos para uma invisibilidade subtil. Não necessariamente através da proibição explícita, mas através da ausência de oportunidades, da desvalorização silenciosa e da ideia implícita de que o seu tempo “já passou”.
Mas passou para quem?
Talvez este seja um dos grandes erros civilizacionais contemporâneos: confundir juventude com valor e envelhecimento com inutilidade.
E aquilo que hoje acontece às gerações mais velhas acabará inevitavelmente por atingir as gerações mais novas de hoje. Os jovens atuais serão os velhos do futuro. Também eles sentirão um dia a distância dolorosa entre aquilo que continuam capazes de fazer e aquilo que os sistemas lhes permitirão continuar a fazer.
Por isso, esta não é apenas uma reflexão sobre envelhecimento. É uma reflexão sobre o próprio modelo de sociedade que estamos a construir.
Uma sociedade saudável não pode desperdiçar inteligência, experiência e criatividade apenas porque passaram determinados anos sobre um documento de identificação.
Precisamos urgentemente de reinventar o lugar da maturidade nas democracias contemporâneas. Precisamos de compreender que envelhecer não pode significar desaparecimento social. Pelo contrário: pode significar transformação, profundidade e novas formas de contribuição.
Talvez aquilo que mais falte ao nosso tempo não seja velocidade, produtividade ou excesso de novidade. Talvez faltem novos narradores da vida. Pessoas capazes de unir experiência, memória, pensamento crítico, sensibilidade e humanidade numa época cada vez mais acelerada, fragmentada e superficial.
E essas pessoas existem. Muitas vezes estão apenas a ser silenciadas por sistemas que ainda não aprenderam a escutá-las.



