Hoje, porém, vivemos um paradoxo inquietante. Nunca houve tantos homens e mulheres portadores de experiência, saber e memória. Nunca houve tantos mestres disponíveis para ensinar. E, no entanto, raramente se criam condições para que essa transmissão aconteça.
Ao atingir determinada idade administrativa, milhares de cidadãos são empurrados para fora dos espaços onde durante décadas aprenderam, ensinaram, lideraram e inovaram. Não porque tenham perdido capacidades, mas porque um calendário decidiu que o seu tempo terminou.
A sociedade não os expulsa de forma declarada. Limita-se a deixá-los à margem. E, com isso, perde muito mais do que imagina
Perde conhecimento que não está escrito em manuais. Perde experiência adquirida em anos de sucessos e fracassos. Perde a sabedoria prática que ajuda a evitar erros e a encontrar soluções.
Uma comunidade que não escuta os seus mestres não está apenas a desvalorizar o passado. Está a enfraquecer o futuro.
A verdadeira riqueza de uma sociedade não se mede apenas pela juventude das suas gerações. Mede-se também pela sua capacidade de aproveitar a experiência daqueles que já percorreram longos caminhos.
Quando os mestres ficam sem discípulos, todos perdem. Perdem os mais velhos, porque deixam de poder partilhar o que sabem. Perdem os mais novos, porque deixam de ter acesso a um património humano insubstituível.
Talvez esteja na altura de recuperar uma ideia antiga, mas profundamente moderna: o conhecimento só cumpre plenamente a sua missão quando é transmitido.
Porque a experiência que não é aproveitada transforma-se em silêncio. E uma sociedade que transforma os seus mestres em silêncio está, sem o perceber, a renunciar a uma parte da sua inteligência coletiva.




Caro amigo 😋Carlos Narciso,
Agradeço-te com amizade e reconhecimento, a publicação do meu artigo “Os Mestres sem Discípulos”.
Num tempo em que a reflexão nem sempre encontra espaço para ser partilhada, é reconfortante contar com profissionais que valorizam o pensamento, a experiência e o debate de ideias. A divulgação deste texto permite que uma reflexão importante sobre o papel da experiência, da memória e da transmissão de conhecimento chegue a mais pessoas.
O artigo tem uma mensagem muito atual e necessária. A ideia de que uma sociedade perde parte da sua inteligência coletiva quando deixa de aproveitar a experiência dos mais velhos é apresentada de forma clara, serena e reflexiva. É um texto que convida à reflexão sem recorrer a dramatismos, o que lhe dá força.
A fotografia acrescenta uma dimensão emocional ao artigo. O leitor não encontra apenas uma reflexão intelectual; encontra também uma representação simbólica da solidão que pode atingir aqueles que possuem muito para ensinar, mas já não encontram espaços ou discípulos para receber esse legado.
Diria mesmo que a imagem funciona como uma metáfora visual poderosa do texto: uma biblioteca cheia de saber, um mestre ainda presente, e a pergunta silenciosa que atravessa todo o artigo — quem virá ouvir e aprender?
Fica o meu agradecimento pela atenção, pela confiança e pelo trabalho jornalístico que continuas a desenvolver em prol da informação e da cidadania.
Com estima e amizade,
Aplausos incondicionais a Manuel Tomaz pela coragem de pôr o dedo na ferida. Professor que fui, professor quero continuar a ser, enquanto (espero!) tenha ouvintes e leitores. A missão de jornalista complementa essa missão didáctica e é com alegria que vejo muitos colegas meus universitários que, aposentados, não deixam, por exemplo, de dar o seu contributo em jornais, não apenas em artigos de opinião, mas também em textos de ensino. Já lá vai (felizmente, digo eu!) o tempo em que o catedrático se fechava numa torre de marfim e lhe dava a impressão de que lhe caíam os parentes na lama se ousasse redigir crónica para um jornal. Bem haja pelo seu testemunho, Manuel!
José d’Encarnação