O ALVO, O RATO E A RATOEIRA

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Sem querer alimentar a questão de Luís Neves, importa tentar entender as motivações que animam algumas ‘almas’, umas bem-intencionadas, outras ingénuas e ainda outras mal-intencionadas, a alinhar na destruição pessoal do titular do Ministério da Administração Interna, bem como na reputação da Polícia Judiciária.

Luís Neves, para o bem e para o mal, está ligado, nos últimos 15 anos, ao combate à criminalidade violenta. Liderou, igualmente, o combate às forças radicais de direita em Portugal. E, num ambiente político em que se acentua uma viragem para a direita radical, alguma comunicação social dá acolhimento a essa mudança. O ministro seria, sempre, um dos alvos a abater, mesmo que tivesse continuado na PJ. O outro alvo seria a própria Instituição. Acresce que o ex-director Nacional da Judiciária teve o ‘descaramento’ de contradizer as posições do Chega e da comunicação social populista quanto à criminalidade derivada do aumento da imigração. E esta posição é-lhe fatal. Ao aceitar ser ministro, meteu a cabeça no cepo. Recordemos a reacção de Passos Coelho à nomeação de Luís Neves, coincidente com o ataque de André Ventura. Sem esquecer a tentativa de colagem ao Partido Socialista que foi alvitrada.

Luís Neves, que até tinha uma ‘boa imprensa’, falhou estrondosamente, diante da pressão mediática a que, até ser ministro, não estava sujeito. É claro que cometeu erros e teve comportamentos que merecem censura, cuja legalidade está a ser apurada. Mas o essencial do ataque passa por dois vectores: a ambição de controlar a Instituição por parte da direita radical e impedir que se saiba que o assalto ao gabinete de André Ventura foi uma patranha e um ataque ao Estado de Direito Democrático.

O Chega e os seus amigos já conseguiram retirar da agenda o assalto. Agora querem que a investigação fique escondida. Luís Neves desafiou Ventura para um duelo às Las cinco de la tarde en punto e voltou a errar. Ou, quem sabe, tudo se insere numa estratégia de Luís Montenegro para obrigar o Chega a apresentar a moção de censura e, após o chumbo da mesma, a AD vitimizar-se e tentar a mesma jogada ‘spinumviva’, que lhe permitiu ganhar as últimas eleições.  

Este desafio a Ventura, poder-se-ia chamar de estratégia de ‘meter o rato na ratoeira’, para o aniquilar. Montenegro conta com a lassidão dos eleitores portugueses quanto a fenómenos de corrupção e de falhas éticas. E anseia por uma maioria absoluta, precisa dela para continuar a desmantelar o SNS, para entregar a segurança social aos seus financiadores e para controlar todas as situações complexas que envolvem outos membros do governo. Na verdade, precisa dessa maioria para sobreviver. Luís Neves aceitou, por algum motivo, ser usado como alvo de André Ventura. Aceitou ser a ratoeira para entalar o Chega, que caiu nela. Alguma comunicação social e as redes sociais chacinaram Luís Neves violentamente. O Chega, como se esperava, apresentou uma moção de censura ao governo, sabendo que não será aprovada.

A AD ensaia a estratégia de vitimização, a mesma de há um ano, acreditando que obterá a tão desejada maioria absoluta, num quadro de anormal funcionamento das instituições. Irá, pois, avançar com a impossibilidade de governar nestas condições, com a tese das forças de bloqueio e com a necessidade de se legitimar para continuar a ‘obra feita’.  Aposta tudo, como se a política fosse um casino, em rebentar com o Chega e recuperar o eleitorado que votou em Ventura. Aposta que o Presidente da República opte pela dissolução da Assembleia da República, num quadro de crise e lhe ofereça o jackpot das eleições antecipadas. Mas, tal como nos jogos da sorte e de azar, por vezes, na maior parte das vezes, o azar bate à porta.

Tranquilamente, António José Seguro, em Belém, gere a crise com um enorme silêncio. Como escreveu Artur Portela Filho, e cito de cor, ‘se um dia o governo de Balsemão cair, iremos ver a sombra de Marcelo Rebelo de Sousa (à data Ministro dos Assunto Parlamentares) a pairar em São Bento e a dar uma enorme gargalhada’. António José Seguro, limitar-se-á, a sorrir e a preparar o caminho para o próximo governo.

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