QUANDO A MEMÓRIA É OFENDIDA

PORTUGAL, O PSD, O CHEGA E A PROVOCAÇÃO HISTÓRICA

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Há propostas políticas que não são apenas erros de julgamento, são atos de provocação. A tentativa de atribuir o nome de Marcelino da Mata a uma rua em Portugal, levada ao Parlamento português por setores ligados ao Partido Social Democrata e ao Chega, não pode ser lida como um gesto inocente. Trata-se de uma escolha política carregada de simbolismo e, no atual contexto guineense, de uma gravidade que não deve ser subestimada.

Não é sobre uma rua. É sobre memória, dignidade e poder

A atribuição de um nome a um espaço público é um ato político de consagração. É uma forma de dizer quem merece ser lembrado. E como deve ser lembrado. Ao propor a elevação de Marcelino da Mata à condição de referência pública, certos setores políticos portugueses procuram impor uma narrativa que ignora, deliberadamente, a memória histórica de um povo que sofreu diretamente as consequências da guerra colonial.

Para muitos em Portugal, Marcelino da Mata pode ser apresentado como um “herói militar”. Para os guineenses, porém, essa leitura é, no mínimo, incompleta e ofensiva. A sua atuação enquanto membro dos chamados Comandos Africanos está associada, na memória coletiva, a operações de repressão brutal contra populações locais, num contexto de dominação colonial.

Não é irrelevante que esta proposta surja num momento particularmente sensível da vida política da Guiné-Bissau. Quando um país enfrenta tensões internas, disputas de narrativa e tentativas de deslegitimação institucional, iniciativas externas com forte carga simbólica podem funcionar como instrumentos de pressão indireta.

A pergunta impõe-se: porquê agora?

A resposta mais plausível é desconfortável: porque há setores políticos em Portugal, particularmente na extrema-direita representada pelo Chega, que continuam a instrumentalizar o passado colonial como arma ideológica. Ao fazê-lo, não apenas reabilitam figuras controversas, como também enviam sinais políticos a determinados atores internos africanos que se alimentam de divisões históricas.

A falsa neutralidade da História

Há quem argumente que “a História deve ser vista no seu contexto”. Esse argumento, embora tecnicamente correto, é frequentemente utilizado como escudo para evitar julgamentos morais. Mas há um limite. Uma democracia madura não é neutra face à violência histórica. Não pode ser.

A tentativa de glorificação acrítica de figuras associadas à repressão colonial revela uma recusa em confrontar o passado com honestidade. E pior: revela uma hierarquização implícita das vítimas, onde o sofrimento africano continua a ser relativizado.

A bravura em combate, por si só, não é critério suficiente para a consagração pública. A História está repleta de figuras militarmente eficazes que, ainda assim, não são, nem devem ser, celebradas.

O que está em causa não é negar a existência de Marcelino da Mata. É recusar a sua elevação simbólica num espaço público que representa valores universais: dignidade humana, justiça e memória inclusiva.

Portugal perante o seu próprio espelho

Esta proposta coloca Portugal diante de uma escolha clara: ou assume uma leitura crítica e responsável do seu passado colonial, ou cede à tentação revisionista de sectores políticos que procuram reescrever a História à luz de nostalgias imperiais.

O chumbo da proposta no Parlamento português, se confirmado e mantido, não será um ato de fraqueza. Será, pelo contrário, um sinal de maturidade democrática e de respeito pelas relações históricas com os povos africanos.

Guiné-Bissau não é um detalhe na História portuguesa. Há uma linha que não pode ser ultrapassada: a desconsideração pela memória de um povo. A Guiné-Bissau não é um apêndice da História de Portugal. É uma nação soberana, com a sua própria narrativa, construída com sangue, resistência e dignidade. Ignorar essa realidade é mais do que um erro político. É uma forma de violência simbólica.

A proposta de homenagear Marcelino da Mata revela que, décadas após o fim do colonialismo, persistem forças que se recusam a aceitar plenamente as implicações morais desse período.

Mas também revela algo mais importante: que há resistência, que há memória e que há dignidade. E essa, ao contrário de qualquer rua, não pode ser renomeada.

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