Aquilo que vejo, aquilo que o algoritmo decidiu que eu devo ver, não é mais do que um reflexo imperfeito de mim próprio. Um gesto mínimo, distraído, uma espécie de bater de asas de um “like” e o sistema devolve-me um mundo onde a poesia parece estar por toda a parte. Não sei se é uma tendência ou apenas uma ilusão bem calibrada.
Mas vamos aos casos concretos. Vídeos curtos, enquadramento íntimo, voz baixa. Pedro Freitas começa quase sempre com uma promessa de tradição – por exemplo, Eugénio de Andrade podia ter dito isto ou aquilo – e, a partir daí, constrói uma espécie de ponte entre tradição e o scroll no telemóvel. A poesia deixa de ser página e passa a ser presença: um rosto, uma respiração, um ritmo que se mede em segundos.
Do outro lado, Alba Muñoz Carbonell sussurra. Há qualquer coisa de deliberadamente íntimo na forma como fala, uma proximidade que não existe nos livros, nem sequer na leitura em voz alta tradicional. A poesia aqui não se lê: insinua-se. Quase como se cada verso tivesse sido escrito para um ouvido específico, ainda que, na verdade, seja lançado para milhares.
Talvez seja isto que mudou. Não a poesia, mas o seu modo de circulação. Já não é o texto que procura o leitor, é o corpo que interpela o espectador. A emoção deixou de ser apenas linguagem e passou a ser também performance, expressão, olhar. E, claro, algoritmo.
E no meio disto tudo, há uma evidência: isto resulta. Há seguidores, há alcance, há dinheiro a circular. A poesia, essa velha arte discreta, aprendeu finalmente a comportar-se como conteúdo. Não sei se ganhou leitores ou apenas audiência.



