Num futebol que se ajoelha perante patrocinadores, mercados e conveniências políticas, Pep Guardiola continua a ser uma exceção incómoda. Nunca escondeu o apoio à causa palestiniana e nunca se refugiou na neutralidade confortável que domina o discurso oficial do desporto. Num tempo em que a palavra “genocídio” parece proibida nos estádios europeus, nos palcos da Eurovisão, na maioria dos grandes eventos públicos, Guardiola não a evita.
Agora, o treinador do Manchester City aceitou ser nomeado treinador honorário da seleção palestiniana de futebolistas amputados, a Gaza Al-Irada, nome que significará “Vontade Inquebrantável de Gaza”. O nome não é metáfora literária: estes jogadores perderam membros em bombardeamentos israelitas. Jogam com próteses e muletas.
O agradecimento dos jogadores está neste vídeo:
Num universo onde federações se apressam a punir braçadeiras solidárias mas fecham os olhos a massacres, o gesto de Guardiola tem um peso que vai além do simbolismo. É um embaraço. Lembra que o silêncio não é neutralidade, é alinhamento. E lembra que o futebol, tão rápido a iluminar monumentos com as cores certas quando convém, sabe ser estranhamente daltónico quando a bandeira é palestiniana.




Guardiola não vai travar bombas nem alterar a geopolítica do Médio Oriente. Mas recusa a anestesia moral. E, num futebol que prefere não ver, isso já é uma forma de resistência.



