Acabar o ano sem dizer nada sobre o que nos trouxe a este planeta, nesta nossa configuração, será um acto de omissão de lesa ternura. Será uma omissão sem perdão algum. Somos oriundos delas, temos várias formas de as amar durante a sua vida, e… e… tanto são maltratadas… Elas trabalham fora e dentro da colmeia. E nós? – Talvez também, agora, nestes anos últimos…
Valerá sempre a nossa vida ter uma mulher que se ame, por perto, connosco de preferência. Saúdo-te assim, Maria!
TARDE DE VERÃO
Olho e vejo o sol a esbofetear-te o rosto
de uma forma dengosa e suave.
Ficas endeusadamente dourada.
Descobri-te. Ah se redescobri!
Estás deitada de lado e posso ver que essa intimidade de renda cobre, ao longo do teu corpo, só a sua metade.
A minha desesperada busca queda-se no teu rosto que viraste para a luz.
Apoias a cabeça na mão. O sol marca-te as formas.
Sinto que alguma coisa se fecha no meu peito. Será ciúme dessa luz imensa
ou a demanda da minha angústia agora que te achei?
Vejo a redoma de ar que te rodeia e sei que o espaço que entre nós medeia
nos separa dos nossos tempos.
O modo enganoso do teu seio que se deixa ver está
em sintonia com a tua respiração.
Esse ar que a mim chega
fez-se aroma de ti e és pétalas de luz.
Nesse teu rosto está gravada toda a história da vida.
O teu corpo rompe em flores de fertilidade.
A minha ressurreição será entre teus lábios
e a vida romperá mais tarde por entre eles
e teus seios alimentarão os poemas de toda a fome do universo.
Estou perante a nova mulher amada que tudo oferece sem dar nada!
Estou perante uma aurora que de luz me desfaz em ruínas!
Estou perante um sentir vertigens de loucura nesta paixão!
Estou perante a minha nudez que ela consegue só com um sorriso.
Aproximo o meu sentir de ti, da aurora, da imagem que apresentas, da luz que te rodeia.
Revejo só mais um encantamento que a tua imagem projecta sobre mim.
Começo a aproximar-me do ano, do mês, da hora, do minuto que és.
Olhas-me enigmaticamente e do alto dessa inútil renda,
para mim, renovas a majestade da tua beleza,
do teu signo, da tua permanência,
e abres os braços voltando a ser, na permissão do teu chamamento,
a insuperável amiga, não uma contrafacção da aurora!
Nada é mais importante no acto da criação… que a mulher. A homenagem não é mais que uma forma tímida e tardia do que sempre lhe cabe por justiça.



